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Hoje as duas palavras dividem o território sem brigar. Bunda serve para tudo que é fala, e nádega serve para tudo que é ficha, laudo e prescrição.
O médico escreve aplicação intramuscular na região glútea. Glúteo vem do grego gloutós (nádega), e é o nome técnico do músculo maior do corpo humano, o glúteo máximo. Nem a palavra latina sobreviveu sozinha no consultório: ganhou a companhia de uma grega.
O caso de bunda e nádega se repete em outras partes do corpo. Barriga, de origem incerta, convive com abdome, do latim abdomen. Cabeça, do latim capitia, convive com crânio, do grego kraníon. A palavra da rua quase sempre é a mais curta e a mais antiga na boca do povo.
A diferença de bunda é a viagem. A maior parte das palavras do corpo que o brasileiro usa veio do latim. Esta veio de uma língua africana que os colonizadores tratavam como inferior, e ganhou a disputa mesmo assim.
A vitória tem explicação sonora. Bunda tem duas sílabas, começa por uma consoante forte e termina em vogal aberta. Nádega tem três, com a tônica na primeira, e soa formal a ouvido brasileiro. Na conversa, a palavra curta ganha quase sempre.
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Uma palavra trazida por gente escravizada venceu a palavra do latim nos lugares onde a língua mais vive: a conversa, a piada e a canção.
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O que ainda não se sabe é a data exata da entrada. Os primeiros registros escritos são tardios, porque palavra considerada chula não ia para o papel. É provável que bunda circulasse na fala muito antes de aparecer impressa, mas não há documento que prove quando.
Em Angola, mbunda continua viva. Quem fala quimbundo em Luanda hoje usa a mesma palavra que atravessou o Atlântico, com o m nasal que o português engoliu na travessia.
Quem quiser ouvir o quimbundo dentro da própria fala pode seguir três passos.
1. Abra um dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e procure bunda, caçula e moleque.
2. Repare quantas vezes por dia você usa uma palavra de casa, como cochilar ou cafuné, que veio de Angola.
3. Na próxima consulta médica, note quando o médico diz nádega ou glúteo e quando a conversa volta para bunda.
Responda este email contando qual palavra de origem africana mais surpreendeu você.
“Que outra palavra do seu dia a dia veio de uma língua que a escola nunca ensinou?”
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