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Bunda

/ˈbũ.dɐ/

Do quimbundo mbunda: a palavra angolana tomou a fala do dia e deixou nádega para o médico

Dicionário aberto ao lado de cesto e escultura de Angola

Luanda, século 17: mbunda embarca para o Brasil

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O Dicionário Houaiss resolve o verbete em duas palavras: “bunda: nádegas”. A definição acerta a parte do corpo e cala a viagem. A palavra que todo brasileiro usa desde criança atravessou o oceano Atlântico no porão de navios negreiros, saída da boca de gente que falava quimbundo.

O quimbundo é uma língua do grupo banto, falada até hoje em Angola, na região de Luanda e no vale do rio Cuanza. Nele, mbunda nomeia as nádegas. O m inicial é uma consoante nasal que o português não sabe pronunciar no começo da palavra, e por esse caminho caiu.

Quando a palavra chegou, o português já tinha a sua. Nádega vinha do latim natica, forma popular derivada de nates, o termo que os romanos usavam para a mesma região do corpo. Era palavra antiga, de pedigree, presente nos textos de medicina e nos tratados de anatomia.

Duas palavras para uma parte do corpo raramente convivem em paz. Uma delas acaba ficando com o uso diário, e a outra se refugia num canto. No Brasil, a disputa teve um vencedor claro.

Bunda ganhou a casa, a rua, o futebol, a música e a piada. Nádega ficou no consultório, na bula de remédio e na ficha da enfermeira que pergunta onde aplicar a injeção.

Em Portugal, o placar saiu diferente. Lá, a palavra angolana existe, mas soa como brasileirismo, e o falante comum prefere rabo para o mesmo lugar. A troca aconteceu deste lado do oceano, entre quem conviveu com os angolanos.

Para um país onde a palavra parece tão natural, a origem pega muita gente de surpresa. Ninguém aprende na escola que fala quimbundo várias vezes por dia.

A explicação começa num porto da costa africana, séculos antes de existir Brasil independente, e passa pela casa grande, pela cozinha e pelo colo das amas.

O primeiro passo é entender quem falava mbunda e como essas pessoas chegaram até aqui.

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I  A Raiz

A língua que saiu do porto de Luanda

Os portugueses fundaram São Paulo da Assunção de Loanda, a atual Luanda, em 1576. O fundador foi Paulo Dias de Novais, neto do navegador Bartolomeu Dias, e a cidade nasceu com uma função principal: embarcar gente escravizada para as colônias americanas.

O reino do Ndongo, cujo governante usava o título de ngola (rei, chefe), dominava a região. Do título veio o nome Angola, que os portugueses deram a toda a colônia. A língua do Ndongo era o quimbundo.

Durante mais de dois séculos, o porto de Luanda mandou navios para Salvador, Recife e Rio de Janeiro. Nos porões viajavam falantes de quimbundo, de umbundo e de quicongo, três línguas bantas aparentadas entre si.

No Brasil, essas pessoas foram trabalhar nos engenhos de açúcar, nas minas de ouro e nas casas dos senhores. A Coroa nunca tentou ensinar português a elas de forma organizada. A língua se aprendia no trabalho, misturada.

O resultado foi um português falado com sotaque, ritmo e vocabulário africanos nas fazendas e nas cidades do litoral. Em muitas regiões, os africanos e seus filhos eram a maioria da população, e o idioma do colonizador precisou se adaptar a quem o usava todos os dias.

A palavra entrou pela convivência diária, de geração em geração, e nunca precisou de licença de gramático para ficar.

Os jesuítas perceberam cedo o peso do quimbundo. Em 1697, o padre Pedro Dias publicou em Lisboa a Arte da língua de Angola, uma gramática do quimbundo escrita na Bahia para que os padres pudessem pregar aos escravizados na própria língua deles.

A obra de Pedro Dias mostra que o quimbundo circulava com força em Salvador no fim do século 17. Quem precisava falar com os trabalhadores das fazendas e dos engenhos tinha de aprender pelo menos o básico.

Os padres registravam as palavras como ouviam. A gramática de Pedro Dias traz as classes de nomes do quimbundo, marcadas por prefixos como mu, ka e ki, que mais tarde reapareceriam escondidos no começo de palavras brasileiras.

Palavras de uso doméstico atravessaram a fronteira mais depressa. As crianças brancas eram criadas por amas africanas e aprendiam com elas o nome das partes do corpo, das brincadeiras e dos castigos. Bunda chegou à língua da família por esse colo.

Os gramáticos demoraram a reconhecer a origem. Em 1933, o filólogo Renato Mendonça publicou A influência africana no português do Brasil, um dos primeiros livros dedicados ao assunto, e pôs bunda na lista das palavras de origem banta.

 
 

II  A Viagem

Do colo da ama ao dicionário

A pesquisa que deu base sólida ao tema veio da Bahia. A etnolinguista Yeda Pessoa de Castro, professora da Universidade Federal da Bahia, passou décadas registrando palavras africanas no português falado no Brasil.

Em 2001, ela publicou Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro, pela Academia Brasileira de Letras. O livro reúne milhares de verbetes e indica, para cada um, a língua africana de origem.

A tese central de Yeda Pessoa de Castro contraria uma ideia antiga. Os gramáticos do século 19 tratavam as palavras africanas como gíria de senzala, sem valor. Ela mostrou que o grupo banto deixou marca no vocabulário mais íntimo do português brasileiro, o da casa e do corpo.

Bunda tem companhia nesse grupo. Caçula vem do quimbundo kasule (o último filho). Cochilar vem de koxila (dormir de leve). Moleque vem de muleke (menino). Quitanda vem de kitanda (feira, tabuleiro de venda).

O português do Brasil guarda o quimbundo nas palavras que se usam dentro de casa, longe da escrita oficial.

Nenhuma dessas palavras entrou pelo livro. Todas vieram pelo ouvido, ditas por mães, amas, cozinheiras e vendedoras, e foram parar na boca dos filhos dos senhores, que depois escreveram os jornais e os romances.

Por esse caminho, o vocabulário banto subiu na escala social sem que ninguém notasse. O menino que aprendia bunda com a ama virava bacharel, deputado ou cronista, e levava a palavra consigo para a sala de visitas.

O caminho até o dicionário foi lento. As palavras africanas ganhavam registro primeiro como regionalismo do Brasil, com a marca de popular ou de chulo. Bunda carregou essa etiqueta por muito tempo e ainda aparece como palavra informal em vários dicionários.

A literatura ajudou a tirar a palavra da sombra. Carlos Drummond de Andrade escreveu, ao longo de décadas, poemas eróticos que guardou na gaveta. Eles saíram em 1992, cinco anos depois da sua partida, no livro O amor natural, e um deles, A bunda, que engraçada, virou dos mais citados do poeta.

A palavra também ganhou derivados que o latim nunca deu a nádega. Bundão, bunda-mole, bundinha e desbundar, verbo que nos anos 1970 descrevia quem largava tudo para viver à vontade, saíram todos da raiz angolana.

 

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III  O Que Fica

O consultório ficou com o latim

Hoje as duas palavras dividem o território sem brigar. Bunda serve para tudo que é fala, e nádega serve para tudo que é ficha, laudo e prescrição.

O médico escreve aplicação intramuscular na região glútea. Glúteo vem do grego gloutós (nádega), e é o nome técnico do músculo maior do corpo humano, o glúteo máximo. Nem a palavra latina sobreviveu sozinha no consultório: ganhou a companhia de uma grega.

O caso de bunda e nádega se repete em outras partes do corpo. Barriga, de origem incerta, convive com abdome, do latim abdomen. Cabeça, do latim capitia, convive com crânio, do grego kraníon. A palavra da rua quase sempre é a mais curta e a mais antiga na boca do povo.

A diferença de bunda é a viagem. A maior parte das palavras do corpo que o brasileiro usa veio do latim. Esta veio de uma língua africana que os colonizadores tratavam como inferior, e ganhou a disputa mesmo assim.

A vitória tem explicação sonora. Bunda tem duas sílabas, começa por uma consoante forte e termina em vogal aberta. Nádega tem três, com a tônica na primeira, e soa formal a ouvido brasileiro. Na conversa, a palavra curta ganha quase sempre.

Uma palavra trazida por gente escravizada venceu a palavra do latim nos lugares onde a língua mais vive: a conversa, a piada e a canção.

O que ainda não se sabe é a data exata da entrada. Os primeiros registros escritos são tardios, porque palavra considerada chula não ia para o papel. É provável que bunda circulasse na fala muito antes de aparecer impressa, mas não há documento que prove quando.

Em Angola, mbunda continua viva. Quem fala quimbundo em Luanda hoje usa a mesma palavra que atravessou o Atlântico, com o m nasal que o português engoliu na travessia.

Quem quiser ouvir o quimbundo dentro da própria fala pode seguir três passos.

1. Abra um dicionário etimológico, como o de Antônio Geraldo da Cunha, e procure bunda, caçula e moleque.

2. Repare quantas vezes por dia você usa uma palavra de casa, como cochilar ou cafuné, que veio de Angola.

3. Na próxima consulta médica, note quando o médico diz nádega ou glúteo e quando a conversa volta para bunda.

Responda este email contando qual palavra de origem africana mais surpreendeu você.

“Que outra palavra do seu dia a dia veio de uma língua que a escola nunca ensinou?”

 
 
 
 
Quiz da edição

Quem fundou o porto de Luanda, de onde saíram os navios que levaram falantes de quimbundo ao Brasil, e em que ano?

ADiogo Cão, em 1492
BPedro Álvares Cabral, em 1500
CPaulo Dias de Novais, em 1576
DBartolomeu Dias, em 1488

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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