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ED 158

Biombo

/bi.ˈõ.bu/

Do japonês. Byōbu, parede contra o vento, chegou a Portugal na nau que voltava do Japão no século dezesseis

Etimologia de Biombo

A nau portuguesa pintada num biombo namban

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"Biombo: armação móvel formada por folhas articuladas, usada para dividir ou resguardar um espaço" (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001). A entrada acerta o uso e deixa de fora o nome. Em japonês, byōbu quer dizer parede contra o vento, e o vento não aparece em nenhuma linha da definição. O móvel foi batizado pelo inimigo que ele barra, não pelo cômodo que ele reparte.

A casa japonesa do século dezesseis explica a escolha. As divisórias internas eram de papel esticado em caixilho de madeira, as portas corriam em trilho, as frestas ficavam por toda parte e vidro de janela não existia no país. O aquecimento vinha de um braseiro raso de carvão posto no chão, e a luz vinha de pavio em óleo. Uma corrente de ar apagava a lâmpada, espalhava a brasa e gelava a nuca de quem estava sentado sobre o tatame.

Contra essa corrente se armava uma parede portátil, alta o bastante para cobrir o corpo sentado e leve o bastante para um servo carregar sozinho. Repartir o ambiente veio depois, como consequência de um objeto que já estava ali por outro motivo. Primeiro o vento, depois a privacidade.

Os portugueses chegaram ao Japão em 1543, na ilha de Tanegashima, e nas décadas seguintes a nau do trato passou a descer de Nagasaki para Macau e Goa carregando seda, laca, porcelana e o móvel dobrável que ninguém em Lisboa tinha visto antes. A palavra desembarcou no mesmo caixote do objeto, quase sem deformação: byōbu virou biombo, e o português foi o primeiro idioma europeu a registrar o termo.

O retrato mais conhecido daquele comércio está pintado justamente sobre esse suporte. Os biombos namban mostram a nau atracando, o capitão de calção bufante descendo a prancha, os marinheiros de pele escura conduzindo a carga e os jesuítas de batina preta esperando no cais. O objeto que carregou a palavra até nós guarda, na própria superfície, a cena dos homens que a carregaram.

Antes do papel dobrado e da nau, porém, existem dois caracteres chineses, e eles dizem em duas sílabas tudo o que a definição do dicionário omite.

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I  A Raiz

Dois caracteres e uma dobradiça de papel

A palavra japonesa se escreve com dois ideogramas emprestados do chinês: 屏, byō, que significa anteparo, aquilo que resguarda ou tapa, e 風, fū, que significa vento. Juntos, e com a alteração sonora que o japonês aplica ao segundo elemento de um composto, formam byōbu, anteparo de vento. O Nihon Shoki, crônica oficial da corte japonesa concluída em 720, já registra biombos entre os presentes diplomáticos recebidos de reinos da península coreana.

O móvel nasceu antes, na China, com o nome de pingfeng, que traz os mesmos dois caracteres e o mesmo sentido literal. O modelo chinês costumava ser rígido, montado sobre pés pesados de madeira, com painéis presos por ferragens. Servia de fundo de trono e de barreira contra o ar frio nos salões.

biombo: do japonês byô-bu, anteparo contra o vento.

Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1982

A modificação japonesa aconteceu na dobradiça. Entre os séculos catorze e quinze, os artesãos substituíram as ferragens por tiras de papel dobradas e coladas em alternância, técnica chamada kami chōtsugai, ou seja, dobradiça de papel. As tiras prendiam as folhas sem deixar vão entre elas e permitiam que o painel dobrasse para os dois lados.

Sem ferragem, o biombo fecha liso como um livro e abre em ziguezague de pé sozinho. A leveza deixou de ser detalhe de fabricação e virou a condição do móvel.

A consequência prática mudou o objeto de categoria. O biombo japonês ficou fino, guardável em pé num armário, transportável por uma pessoa e, principalmente, contínuo: a pintura podia atravessar as seis folhas sem interrupção, porque não havia moldura separando uma da outra.

O tamanho seguiu uma medida de corpo, não de parede. A altura padrão do biombo de seis folhas gira em torno de um metro e meio, o suficiente para cobrir quem está sentado no chão e para deixar o teto livre, porque tapar o teto escureceria o cômodo inteiro numa casa que dependia de luz filtrada por papel.

A superfície contínua atraiu os melhores pintores do país. A escola Kanō, que dominou a pintura japonesa por três séculos, produziu biombos de fundo dourado com cenas de pinheiro, tigre e cidade vista de cima, e o formato padrão de seis folhas por par virou a peça de prestígio que um senhor de guerra dava de presente a um aliado ou a um visitante estrangeiro.

Foi exatamente como presente de senhor de guerra que o objeto entrou na rota marítima portuguesa.

 
 

II  A Viagem

A nau, o papa e o par que sumiu

Oda Nobunaga, o senhor de guerra que controlava a região central do Japão, mandou pintar por Kanō Eitoku um par de biombos com a vista do seu castelo de Azuchi, às margens do lago Biwa. Em 1581 ele entregou o par ao jesuíta italiano Alessandro Valignano, então visitador da Companhia de Jesus no Oriente, num gesto que valia como reconhecimento diplomático.

Valignano embarcou os painéis com a embaixada de quatro jovens japoneses cristãos que partiu de Nagasaki em 1582, a chamada embaixada Tenshō, nome do período do calendário japonês. O grupo cruzou Macau, Goa e Lisboa e chegou a Roma em 1585, onde entregou os biombos ao papa Gregório XIII.

Vossa Santidade recebeu com as demonstrações de contentamento que se podem imaginar aqueles quatro mancebos vindos do cabo do mundo.

Luís Fróis, História de Japam, século dezesseis

Aqui a história para sem desfecho conhecido, e vale dizer com todas as letras por quê. Os biombos de Azuchi foram registrados no acervo do Vaticano no fim do século dezesseis e depois desaparecem da documentação. Nenhum inventário posterior os localiza, nenhuma cópia sobreviveu, e o castelo retratado ardeu em 1582. A pintura mais citada de Kanō Eitoku é conhecida hoje apenas por descrição escrita.

O que sobrou em quantidade foram os biombos namban, termo japonês que significa bárbaros do sul e designava os europeus chegados por mar. Pintores como Kanō Naizen produziram dezenas de pares mostrando a chegada da nau portuguesa, e exemplares estão hoje em museus japoneses, entre eles o Museu Municipal de Kobe.

A palavra seguiu o objeto pelo mesmo caminho. Do português ela passou ao castelhano como biombo, e daí para o vocabulário doméstico de toda a América hispânica. O inglês e o francês preferiram descrever a mecânica e criaram folding screen e paravent, que significam tela dobrável e para-vento: o francês reinventou por conta própria o sentido que o japonês já tinha inventado.

A troca correu nos dois sentidos. O japonês moderno guarda pan, de pão, botan, de botão, tabako, de tabaco, kappa, de capa, e tempura, palavra que os estudiosos ligam ao latim tempora, as têmporas do calendário litúrgico em que os padres não comiam carne.

Em 1639 o governo Tokugawa fechou o país ao comércio português e expulsou os missionários. A rota morreu, os pintores namban perderam o assunto, e o biombo continuou em português sem nenhum vínculo visível com o idioma que o gerou.

 

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III  O Que Fica

O que o objeto perdeu e a palavra guardou

Na Europa o móvel mudou de função assim que atravessou a porta. A casa europeia tinha parede de pedra, lareira de tiragem e janela envidraçada, e a corrente de ar deixava de ser o problema principal do cômodo. O biombo virou peça de aparato, moldura para tapeçaria, couro lavrado ou laca oriental, e depois anteparo de alcova, onde quem se trocava ficava fora do campo de visão.

O Brasil incorporou o objeto nessa segunda versão. O biombo hospitalar separa o leito no meio da enfermaria, o biombo do estúdio de fotografia servia de cabine de troca e o biombo de sala aparece em inventário de casa senhorial do século dezenove como item de mobília fina, quase sempre de laca ou de madeira entalhada.

O objeto trocou de função três vezes e não trocou de nome nenhuma. A palavra viaja mais longe que a utilidade que a criou.

Sobrou também o formato no vocabulário técnico de outras áreas. Em arquitetura, biombo nomeia o painel vazado que filtra sol na fachada; em teatro, o anteparo que esconde a coxia; em informática doméstica, a divisória de mesa que separa dois postos de trabalho num escritório aberto. Cada uso novo herdou a ideia de barrar alguma coisa que vem de fora.

O uso figurado veio junto e se firmou no português falado. Servir de biombo significa emprestar a própria fachada para cobrir o que acontece atrás, e a expressão aparece em texto jornalístico brasileiro sobre empresa aberta apenas para esconder a origem de um dinheiro. O sentido de anteparo se manteve intacto na metáfora, mesmo quando o móvel já não estava em nenhuma sala.

Fica um critério de leitura para qualquer palavra que chega de outro idioma junto com um objeto. O nome estrangeiro costuma preservar a razão original da invenção, e não o motivo pelo qual o comprador de fora resolveu levá-la. Quem usa biombo no Brasil pensa em privacidade; quem criou o nome pensava em vento.

Pinturas de superfície contínua, dobradiça de papel e quatro sílabas atravessaram três continentes num caixote de nau. O objeto perdeu o braseiro, perdeu o tatame e perdeu o vento. A palavra guardou os três.

"Quantos objetos da sua casa carregam, no nome, um problema que você não tem mais?"

A próxima palavra desta coluna: leque, o objeto que o Japão dobrou primeiro e a Europa copiou depois.

 
 
 
 
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Segundo o texto, a quem Oda Nobunaga entregou em 1581 o par de biombos pintados por Kanō Eitoku com a vista do castelo de Azuchi?

AAo papa Gregório XIII
BAo jesuíta Alessandro Valignano
CAo cronista Luís Fróis
DÀ embaixada Tenshō

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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