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Biombo
/bi.ˈõ.bu/
Do japonês. Byōbu, parede contra o vento, chegou a Portugal na nau que voltava do Japão no século dezesseis
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A nau portuguesa pintada num biombo namban
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"Biombo: armação móvel formada por folhas articuladas, usada para dividir ou resguardar um espaço" (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001). A entrada acerta o uso e deixa de fora o nome. Em japonês, byōbu quer dizer parede contra o vento, e o vento não aparece em nenhuma linha da definição. O móvel foi batizado pelo inimigo que ele barra, não pelo cômodo que ele reparte.
A casa japonesa do século dezesseis explica a escolha. As divisórias internas eram de papel esticado em caixilho de madeira, as portas corriam em trilho, as frestas ficavam por toda parte e vidro de janela não existia no país. O aquecimento vinha de um braseiro raso de carvão posto no chão, e a luz vinha de pavio em óleo. Uma corrente de ar apagava a lâmpada, espalhava a brasa e gelava a nuca de quem estava sentado sobre o tatame.
Contra essa corrente se armava uma parede portátil, alta o bastante para cobrir o corpo sentado e leve o bastante para um servo carregar sozinho. Repartir o ambiente veio depois, como consequência de um objeto que já estava ali por outro motivo. Primeiro o vento, depois a privacidade.
Os portugueses chegaram ao Japão em 1543, na ilha de Tanegashima, e nas décadas seguintes a nau do trato passou a descer de Nagasaki para Macau e Goa carregando seda, laca, porcelana e o móvel dobrável que ninguém em Lisboa tinha visto antes. A palavra desembarcou no mesmo caixote do objeto, quase sem deformação: byōbu virou biombo, e o português foi o primeiro idioma europeu a registrar o termo.
O retrato mais conhecido daquele comércio está pintado justamente sobre esse suporte. Os biombos namban mostram a nau atracando, o capitão de calção bufante descendo a prancha, os marinheiros de pele escura conduzindo a carga e os jesuítas de batina preta esperando no cais. O objeto que carregou a palavra até nós guarda, na própria superfície, a cena dos homens que a carregaram.
Antes do papel dobrado e da nau, porém, existem dois caracteres chineses, e eles dizem em duas sílabas tudo o que a definição do dicionário omite.
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I A Raiz
Dois caracteres e uma dobradiça de papel
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A palavra japonesa se escreve com dois ideogramas emprestados do chinês: 屏, byō, que significa anteparo, aquilo que resguarda ou tapa, e 風, fū, que significa vento. Juntos, e com a alteração sonora que o japonês aplica ao segundo elemento de um composto, formam byōbu, anteparo de vento. O Nihon Shoki, crônica oficial da corte japonesa concluída em 720, já registra biombos entre os presentes diplomáticos recebidos de reinos da península coreana.
O móvel nasceu antes, na China, com o nome de pingfeng, que traz os mesmos dois caracteres e o mesmo sentido literal. O modelo chinês costumava ser rígido, montado sobre pés pesados de madeira, com painéis presos por ferragens. Servia de fundo de trono e de barreira contra o ar frio nos salões.
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biombo: do japonês byô-bu, anteparo contra o vento.
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Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1982
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A modificação japonesa aconteceu na dobradiça. Entre os séculos catorze e quinze, os artesãos substituíram as ferragens por tiras de papel dobradas e coladas em alternância, técnica chamada kami chōtsugai, ou seja, dobradiça de papel. As tiras prendiam as folhas sem deixar vão entre elas e permitiam que o painel dobrasse para os dois lados.
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Sem ferragem, o biombo fecha liso como um livro e abre em ziguezague de pé sozinho. A leveza deixou de ser detalhe de fabricação e virou a condição do móvel.
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A consequência prática mudou o objeto de categoria. O biombo japonês ficou fino, guardável em pé num armário, transportável por uma pessoa e, principalmente, contínuo: a pintura podia atravessar as seis folhas sem interrupção, porque não havia moldura separando uma da outra.
O tamanho seguiu uma medida de corpo, não de parede. A altura padrão do biombo de seis folhas gira em torno de um metro e meio, o suficiente para cobrir quem está sentado no chão e para deixar o teto livre, porque tapar o teto escureceria o cômodo inteiro numa casa que dependia de luz filtrada por papel.
A superfície contínua atraiu os melhores pintores do país. A escola Kanō, que dominou a pintura japonesa por três séculos, produziu biombos de fundo dourado com cenas de pinheiro, tigre e cidade vista de cima, e o formato padrão de seis folhas por par virou a peça de prestígio que um senhor de guerra dava de presente a um aliado ou a um visitante estrangeiro.
Foi exatamente como presente de senhor de guerra que o objeto entrou na rota marítima portuguesa.
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II A Viagem
A nau, o papa e o par que sumiu
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Oda Nobunaga, o senhor de guerra que controlava a região central do Japão, mandou pintar por Kanō Eitoku um par de biombos com a vista do seu castelo de Azuchi, às margens do lago Biwa. Em 1581 ele entregou o par ao jesuíta italiano Alessandro Valignano, então visitador da Companhia de Jesus no Oriente, num gesto que valia como reconhecimento diplomático.
Valignano embarcou os painéis com a embaixada de quatro jovens japoneses cristãos que partiu de Nagasaki em 1582, a chamada embaixada Tenshō, nome do período do calendário japonês. O grupo cruzou Macau, Goa e Lisboa e chegou a Roma em 1585, onde entregou os biombos ao papa Gregório XIII.
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Vossa Santidade recebeu com as demonstrações de contentamento que se podem imaginar aqueles quatro mancebos vindos do cabo do mundo.
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Luís Fróis, História de Japam, século dezesseis
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Aqui a história para sem desfecho conhecido, e vale dizer com todas as letras por quê. Os biombos de Azuchi foram registrados no acervo do Vaticano no fim do século dezesseis e depois desaparecem da documentação. Nenhum inventário posterior os localiza, nenhuma cópia sobreviveu, e o castelo retratado ardeu em 1582. A pintura mais citada de Kanō Eitoku é conhecida hoje apenas por descrição escrita.
O que sobrou em quantidade foram os biombos namban, termo japonês que significa bárbaros do sul e designava os europeus chegados por mar. Pintores como Kanō Naizen produziram dezenas de pares mostrando a chegada da nau portuguesa, e exemplares estão hoje em museus japoneses, entre eles o Museu Municipal de Kobe.
A palavra seguiu o objeto pelo mesmo caminho. Do português ela passou ao castelhano como biombo, e daí para o vocabulário doméstico de toda a América hispânica. O inglês e o francês preferiram descrever a mecânica e criaram folding screen e paravent, que significam tela dobrável e para-vento: o francês reinventou por conta própria o sentido que o japonês já tinha inventado.
A troca correu nos dois sentidos. O japonês moderno guarda pan, de pão, botan, de botão, tabako, de tabaco, kappa, de capa, e tempura, palavra que os estudiosos ligam ao latim tempora, as têmporas do calendário litúrgico em que os padres não comiam carne.
Em 1639 o governo Tokugawa fechou o país ao comércio português e expulsou os missionários. A rota morreu, os pintores namban perderam o assunto, e o biombo continuou em português sem nenhum vínculo visível com o idioma que o gerou.
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