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Bangalô

/bɐ̃.ɡaˈlo/

Do bengali bangla: a casa ao jeito da Bengala

Cabana bengali de barro com telhado de palha curvo

Cabana bengali com varanda de sombra

▼

O Houaiss registra bangalô como “casa térrea, de construção leve, com varanda”. A definição descreve a planta da casa e cala sobre o nome. Bangalô não fala de telhado, de varanda nem de praia: fala de um lugar no mapa, a Bengala, região no leste do subcontinente indiano.

No Brasil, a palavra mora em anúncio de pousada e de condomínio de praia. Bangalô de frente pro mar, bangalô com ofurô (banheira japonesa de madeira), bangalô suspenso na mata. O hóspede paga a diária pensando em sossego e dorme dentro do nome de uma província.

A origem está no bengali, a língua falada hoje em Bangladesh e no estado indiano de Bengala Ocidental. Ali, bangla quer dizer bengali, ou da Bengala. Uma casa bangla era uma casa ao jeito da terra, e o nome dizia só de onde ela vinha.

O modelo era a cabana do camponês bengali. Paredes de barro ou de bambu, um andar só, telhado de palha com as pontas curvadas pra baixo, feito pra escorrer a água da monção (a estação das chuvas fortes no sul da Ásia). Em volta, uma faixa coberta dava sombra.

Os comerciantes ingleses que chegaram à região no século 17 precisavam de casa barata, fresca e rápida de erguer. Copiaram a cabana, aumentaram o tamanho, puseram a varanda em volta e levaram junto o nome, mastigado pela boca inglesa: bungalow.

Três séculos depois, a palavra tinha passado por quartéis do exército britânico, pela costa de Kent, pelos subúrbios da Califórnia e pelo litoral brasileiro. A casa mudou de material em cada parada. O nome guardou o endereço de origem.

A primeira parada dessa história é o próprio nome Bengala, que já era antigo quando o primeiro inglês desembarcou no delta do Ganges.

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I  A Raiz

A terra de Vanga

A resposta de ontem

De onde veio a palavra Danone?

Do apelido do filho. Daniel Carasso era chamado em casa de Danon, diminutivo catalão de Daniel, algo como Danielzinho. O pai batizou a fábrica de iogurte com o apelido do menino, e Daniel, adulto, levou a marca para Paris em 1929 e para Nova York em 1942, onde ela ganhou a grafia Dannon.

O nome Bengala vem de Vanga, um antigo reino do delta do Ganges citado no Mahabharata (o grande poema épico da Índia, composto ao longo de séculos antes da era cristã). Os textos em sânscrito, a língua clássica da Índia, usam Vanga para o povo e para a terra da foz do rio.

Com o tempo, Vanga virou Bangala na boca dos persas e dos turcos que governaram a região a partir do século 13. O sultanato de Bengala, independente de Délhi de 1352 a 1576, firmou Bangala como nome da província inteira, do delta às colinas do norte.

Dessa forma vieram os nomes que a Europa usa. Os portugueses, que chegaram ao delta no século 16, escreveram Bengala. Os ingleses escreveram Bengal. E a própria língua da terra virou bangla, o nome que os bengalis dão ao idioma até hoje.

Em bengali, a palavra funciona também como adjetivo de origem. Bangla é a língua, e bangla é o que pertence à terra: a comida, a roupa, o jeito de construir. A casa bangla, a casa bengali, entrou nessa lista como entraram o arroz e o tecido.

Bangalô é um adjetivo de origem promovido a substantivo: a casa ganhou o nome de quem a fazia.

A casa bangla tinha um traço inconfundível, o telhado. A palha sobre a armação de bambu formava duas águas curvas, com a cumeeira arqueada e os beirais caindo como a aba de um chapéu. O formato vinha da prática: o bambu verga sob o peso, e a curva escoa a chuva da monção sem empoçar.

O telhado ficou tão ligado à região que virou estilo. Os templos de tijolo de Bishnupur, em Bengala Ocidental, construídos nos séculos 17 e 18, copiam em terracota (barro cozido) a curva da cabana de palha. Os arquitetos bengalis chamam essa cobertura de chala, palavra local para telhado.

Os imperadores mogóis, a dinastia muçulmana que governou o norte da Índia a partir de 1526, levaram o telhado curvo para os palácios. O Pavilhão Naulakha, de mármore branco, erguido em 1633 no Forte de Lahore, no atual Paquistão, tem a cobertura em curva bengali.

Os historiadores da arquitetura mogol dão a essa cobertura o nome de bangaldar, que quer dizer ao jeito bengali. A cabana do camponês tinha subido ao palácio do imperador sem perder o nome da terra de onde saiu.

Quando os ingleses chegaram, a palavra bangla já designava um tipo de casa e um tipo de telhado havia séculos. Eles não inventaram o nome. Pegaram um adjetivo de origem pronto e o grudaram na construção que viam pela janela.

 
 

II  A Viagem

Da cabana ao quartel

A Companhia Inglesa das Índias Orientais, empresa de comércio criada em Londres em 1600, abriu feitorias em Bengala ao longo do século 17 e fundou Calcutá em 1690. Os funcionários eram poucos, o calor era forte e o tijolo era caro. A cabana bangla resolvia os três problemas.

Nos papéis dos ingleses na Índia, a palavra aparece com a grafia de quem escrevia de ouvido: bungale, bungelow, banglo. O dicionário Hobson-Jobson, publicado em 1886 pelos britânicos Henry Yule e Arthur Coke Burnell para explicar as palavras anglo-indianas, reúne essas formas e conclui pela origem bengali.

Os ingleses mexeram na planta. Ergueram a casa sobre uma base de alvenaria, para fugir da umidade e das cobras, aumentaram o pé-direito para o ar quente subir e cercaram o corpo da casa com uma varanda larga, às vezes nos quatro lados.

A varanda tem história própria, e ela passa por Portugal. Os portugueses chegaram à Índia em 1498 e deixaram palavras pelos portos. O mesmo Hobson-Jobson registra verandah como palavra que os ingleses encontraram já em uso na Índia e aponta como provável fonte o português varanda.

A casa que os ingleses espalharam pelo mundo juntava um nome bengali e, ao que tudo indica, uma varanda com nome português.

No século 19, o bangalô virou peça do Império. O governo britânico construiu ao longo das estradas da Índia os dak bungalows (casas da posta, de dak, correio em hindi), pousadas para viajantes e funcionários em serviço. Oficiais do exército moravam em bangalôs nos acantonamentos, os bairros militares separados das cidades indianas.

Nas estações de montanha, como Simla, para onde o governo da Índia britânica se mudava no verão, o bangalô ganhou lareira, chaminé e telhado de ferro corrugado. O nome ficou, o material mudou.

O historiador da arquitetura Anthony D. King, no livro The Bungalow: The Production of a Global Culture (O bangalô: a produção de uma cultura global), de 1984, acompanha a casa no rastro do comércio britânico. Onde o Império punha funcionário, plantação ou ferrovia, o bangalô aparecia, da Índia ao Ceilão e à África.

A volta para a Inglaterra aconteceu no fim do século 19. Em 1869 e 1870, o arquiteto John Taylor ergueu em Westgate-on-Sea, na costa de Kent, casas térreas vendidas com o nome bungalow, pensadas para veraneio. King as aponta entre as primeiras do país com o nome.

Na vizinha Birchington-on-Sea, o pintor e poeta inglês Dante Gabriel Rossetti passou num desses bangalôs os últimos meses de vida, em 1882. A casa de praia de um andar tinha virado moda entre quem podia manter duas casas.

 

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III  O Que Fica

A casa de praia e a bengala

Dos Estados Unidos veio a onda seguinte. No começo do século 20, o bangalô californiano, de um andar, varanda na frente e telhado baixo de beiral largo, virou a casa da classe média americana. A Sears, rede de lojas por catálogo, vendeu entre 1908 e 1940 casas em kit (as peças chegavam numeradas de trem), muitas no modelo bangalô.

O nome mudou de sentido nessa travessia. Na Índia, bangalô era a casa do funcionário do Império; na Inglaterra, casa de veraneio; nos Estados Unidos, casa barata de subúrbio. Em comum, sobraram o andar único e a varanda.

O português recebeu a palavra do inglês e a adaptou à própria fonética: o w final caiu, o acento foi para a última sílaba e nasceu bangalô, com o ô fechado. O Houaiss registra a palavra como vinda do inglês bungalow, que por sua vez vem do bengali.

No Brasil, o sentido que pegou foi o da praia. Bangalô virou casa de madeira em pousada, cabana de resort, chalé sobre palafita no Nordeste. A palavra nascida no barro do delta do Ganges voltou a ser o que era no começo: casa leve, de um andar, num lugar quente.

Quem reserva um bangalô na praia dorme numa versão da cabana do camponês bengali, com o nome que ele dava a ela.

Bengala deixou outra palavra no português, e ela fica no armário de muita casa. A bengala, a vara de apoio para andar, tem o nome da província. Os portugueses traziam de Bengala canas de bambu e de rotim (palmeira trepadeira de caule flexível) usadas para fazer bastões, e o objeto ficou com o nome do porto de origem.

O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, publicado em 1982, liga bengala, a vara, ao nome da região. O topônimo virou objeto, como aconteceu com a casa no inglês.

Três palavras do português guardam o nome da mesma terra:

• Bangalô: a casa térrea com varanda, pelo inglês bungalow.

• Bengala: a vara de apoio, pelas canas que vinham da região.

• Bengali: a língua e o povo, que os falantes chamam de bangla.

Bangladesh, o país criado em 1971, tem o mesmo radical: bangla mais desh, terra ou país, ou seja, o país dos bengalis. É o mesmo adjetivo que os ingleses puseram na porta das casas de veraneio.

Na placa da pousada, a palavra bangalô segue dizendo o que dizia no delta do Ganges: casa ao jeito da Bengala.

 
 
★ RARO

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Segundo o dicionário anglo-indiano Hobson-Jobson, citado no texto, de qual língua vem provavelmente a palavra verandah, que os ingleses acrescentaram à planta do bangalô?

ADo hindi dak, a palavra para correio
BDo português varanda
CDo bengali bangla
DDo persa bangala

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