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Dos Estados Unidos veio a onda seguinte. No começo do século 20, o bangalô californiano, de um andar, varanda na frente e telhado baixo de beiral largo, virou a casa da classe média americana. A Sears, rede de lojas por catálogo, vendeu entre 1908 e 1940 casas em kit (as peças chegavam numeradas de trem), muitas no modelo bangalô.
O nome mudou de sentido nessa travessia. Na Índia, bangalô era a casa do funcionário do Império; na Inglaterra, casa de veraneio; nos Estados Unidos, casa barata de subúrbio. Em comum, sobraram o andar único e a varanda.
O português recebeu a palavra do inglês e a adaptou à própria fonética: o w final caiu, o acento foi para a última sílaba e nasceu bangalô, com o ô fechado. O Houaiss registra a palavra como vinda do inglês bungalow, que por sua vez vem do bengali.
No Brasil, o sentido que pegou foi o da praia. Bangalô virou casa de madeira em pousada, cabana de resort, chalé sobre palafita no Nordeste. A palavra nascida no barro do delta do Ganges voltou a ser o que era no começo: casa leve, de um andar, num lugar quente.
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Quem reserva um bangalô na praia dorme numa versão da cabana do camponês bengali, com o nome que ele dava a ela.
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Bengala deixou outra palavra no português, e ela fica no armário de muita casa. A bengala, a vara de apoio para andar, tem o nome da província. Os portugueses traziam de Bengala canas de bambu e de rotim (palmeira trepadeira de caule flexível) usadas para fazer bastões, e o objeto ficou com o nome do porto de origem.
O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, publicado em 1982, liga bengala, a vara, ao nome da região. O topônimo virou objeto, como aconteceu com a casa no inglês.
Três palavras do português guardam o nome da mesma terra:
• Bangalô: a casa térrea com varanda, pelo inglês bungalow.
• Bengala: a vara de apoio, pelas canas que vinham da região.
• Bengali: a língua e o povo, que os falantes chamam de bangla.
Bangladesh, o país criado em 1971, tem o mesmo radical: bangla mais desh, terra ou país, ou seja, o país dos bengalis. É o mesmo adjetivo que os ingleses puseram na porta das casas de veraneio.
Na placa da pousada, a palavra bangalô segue dizendo o que dizia no delta do Ganges: casa ao jeito da Bengala.
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