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Azulejo
/a.zuˈle.ʒu/
Do árabe az-zulayj, a pedrinha polida do mosaico: o azul só tomou conta no século 17
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Antes do azul, o amarelo, o verde e o roxo
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O Dicionário Houaiss define assim: “azulejo: placa de cerâmica, de pouca espessura, com uma das faces vidrada e decorada”. A definição não diz cor nenhuma, e acerta. Quem lê a palavra, porém, ouve azul dentro dela e completa o verbete por conta própria, imaginando a fachada branca com desenho anil. A cabeça do falante erra onde o dicionário ficou calado.
A palavra azulejo não descende de azul. Descende do árabe az-zulayj, que quer dizer pedrinha polida, e chegou à Península Ibérica com os muçulmanos que governaram boa parte dela entre os séculos 8 e 15.
A semelhança com azul é coincidência de som. As duas palavras vieram do árabe, por caminhos separados, e se encontraram no português por acaso.
A prova mais visível está nas paredes. Em 1508, o rei dom Manuel I mandou revestir salas do Palácio Nacional de Sintra, perto de Lisboa, com azulejos comprados em Sevilha. Quem visita o palácio hoje encontra verde, melado (um castanho de mel), branco, preto e roxo de manganês, com o azul aparecendo como uma cor entre várias.
Os painéis portugueses do século 16 seguiram essa paleta larga. As igrejas de Lisboa e de Coimbra receberam padrões de amarelo e azul, folhagens verdes e molduras alaranjadas. O branco com azul, que hoje parece a assinatura do país, só dominou a produção a partir da segunda metade do século 17.
Até lá, o azulejo era chamado pelo que tinha sido na origem: um pedaço de superfície lisa e brilhante, feito para encaixar em outros iguais e formar desenho.
A palavra guardou a técnica, e a cor veio depois, por uma moda que atravessou o oceano Índico antes de chegar a Lisboa.
Para entender como a pedrinha virou placa, é preciso começar pelo mosaico que os árabes levaram ao sul da Espanha.
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I A Raiz
A pedrinha que escorrega na mão
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Az-zulayj é a forma com artigo de zulayj, palavra do árabe falado no norte da África e na Península Ibérica medieval. O al- do artigo árabe se cola ao som seguinte e vira az- diante de z, como em azeite (az-zayt) e azeitona.
Os dicionários etimológicos ligam zulayj ao verbo zalaja (escorregar, deslizar). A pedrinha seria aquela tão polida que escorrega entre os dedos, o caco de cerâmica vidrada cuja face lisa reflete a luz.
No Marrocos, a mesma palavra sobrevive como zellige (mosaico de cacos de cerâmica esmaltada), pronunciada pelos artesãos de Fez até hoje. O zellige não é pintado. Cada peça sai de uma placa de uma cor só, cortada à mão no formato de estrela, losango ou triângulo.
O desenho nasce da montagem. O artesão encaixa centenas de peças lado a lado, de face para baixo, e prende o conjunto com argamassa. Uma parede inteira pode levar meses.
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O azulejo começou como encaixe: a palavra nomeava a peça polida, e o desenho vinha da soma das peças.
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Na Espanha muçulmana, os oleiros de Sevilha e de Málaga simplificaram o trabalho. Em vez de cortar cada caco, passaram a moldar placas quadradas que já traziam o desenho geométrico inteiro, imitando o mosaico numa peça só.
A técnica da corda seca (sulco de óleo e manganês que separa as cores no forno) e a da aresta (relevo que forma pequenas bacias para cada esmalte) chegaram ao auge em Sevilha nas últimas décadas do século 15. Os dois métodos mantinham as cores separadas, sem escorrer uma na outra.
O nome seguiu a peça. O que se chamava pedrinha polida passou a designar a placa inteira, e azulejo entrou no castelhano e no português já com o sentido de ladrilho vidrado.
A palavra azul tem outra história. Vem do persa lāzhward, nome de uma região de minas no atual Afeganistão de onde saía o lápis-lazúli, a pedra azul-escura usada como pigmento. Os árabes fizeram dela lāzaward, e o latim medieval, lazurium.
O l- inicial caiu porque os falantes o confundiram com o artigo, como se lazur fosse “o azur”. Daí saíram azul em português, azur em francês e azure em inglês.
Duas palavras árabes, uma de cor e outra de técnica, dividem as mesmas três primeiras letras no português. O falante juntou as duas na cabeça, e o azulejo azul reforçou a confusão.
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II A Viagem
De Sevilha ao Ciclo dos Mestres
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Portugal comprou azulejos de Sevilha durante todo o começo do século 16. A viagem de dom Manuel I à Espanha, em 1498, é apontada pelos historiadores como a origem das encomendas para Sintra, onde o rei viu os interiores mouriscos de perto.
Por volta de 1500, o oleiro italiano Francisco Niculoso, conhecido como Pisano, trouxe para Sevilha a majólica (técnica italiana de pintar direto sobre o esmalte branco ainda cru). A novidade permitia figuras, rostos e paisagens, e libertou o azulejo do desenho geométrico.
Na segunda metade do século 16, ceramistas flamengos e italianos abriram oficinas em Lisboa. Em 1584, o pintor Francisco de Matos assinou os painéis da capela de São Roque, na igreja lisboeta do mesmo santo, com pontas de diamante em amarelo, azul e verde.
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O azulejo português nasceu colorido e só ficou azul quando a porcelana da China entrou na moda.
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No século 17, Portugal desenvolveu o azulejo de padrão (módulos que, repetidos, cobrem paredes inteiras). Igrejas do Alentejo e de Lisboa ficaram vestidas de amarelo e azul sobre branco, em desenhos que lembravam tapetes.
A mudança veio pelo comércio. Os navios portugueses traziam do Oriente a porcelana chinesa da dinastia Ming, branca com pintura em azul de cobalto, e a louça de Delft, na Holanda, copiava o padrão para o mercado europeu.
A elite de Lisboa passou a querer paredes que combinassem com a louça. A partir de cerca de 1670, as oficinas reduziram a paleta ao branco e ao azul, que também saía mais barato de produzir com uma cor só no forno.
Entre 1690 e 1725, a produção viveu o chamado Ciclo dos Mestres. Pintores como António Pereira, Manuel dos Santos e António de Oliveira Bernardes assinaram grandes painéis figurativos em branco e azul, com cenas de caça, batalhas e vidas de santos.
O Ciclo dos Mestres levou o modelo ao Brasil. Os conventos de Salvador e do Rio de Janeiro receberam painéis lisboetas inteiros, montados peça por peça na chegada dos navios.
Depois do terremoto de Lisboa, em 1755, o Marquês de Pombal precisou reconstruir a cidade depressa. O azulejo de padrão, barato e fabricado em série, voltou a cobrir a parte interna dos prédios novos, e as cores amarela e verde reapareceram nas fábricas, como a Real Fábrica do Rato, fundada em 1767.
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