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Axé

/aˈʃɛ/

Do iorubá àṣẹ: a força que faz a palavra dita acontecer

Pátio de terreiro de candomblé em Salvador com pano branco e folhas

Axé: a força da palavra cumprida

▼

O Dicionário Houaiss registra axé como “força, energia” e como saudação de quem deseja sorte. A definição acerta o efeito e esquece a origem: a palavra chegou ao português dentro da reza, dita em iorubá, e só muito depois ganhou trio elétrico.

Em iorubá, a língua do sudoeste da Nigéria, do Benin e do Togo, a forma é àṣẹ, pronunciada quase igual ao axé brasileiro. O sentido central é poder de realização: a força que torna real o que se diz.

Por esse sentido, a palavra encerra a oração. Quem reza diz o pedido e a roda responde àṣẹ, como o católico responde amém. Amém vem do hebraico amen (assim seja), e as duas palavras ocupam o mesmo lugar no fim da prece.

A comparação tem limite. O amém concorda com o que foi dito. O àṣẹ, para quem reza em iorubá, põe o pedido em movimento, como se a palavra empurrasse o mundo.

No Brasil, a palavra ganhou mais tarefas. Nos terreiros de candomblé (a religião afro-brasileira de culto aos orixás, as divindades iorubás), axé nomeia a força guardada nas folhas, nas pedras e no chão da casa. Nomeia também a comunidade inteira e entra no nome dos templos, como o Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador.

Fora do terreiro, virou cumprimento. Muito axé pra você deseja sorte a quem vai viajar, prestar concurso ou abrir um negócio, e quem diz a frase muitas vezes nunca pisou num terreiro.

Em 1987, em Salvador, a palavra ganhou o sentido que mais toca no rádio: rótulo de gênero musical. A mistura de frevo, ijexá (ritmo lento dos afoxés, cortejos de candomblé no Carnaval) e reggae, puxada por trio elétrico, passou a se chamar axé music. O nome nasceu numa coluna de jornal, e não da boca de um músico.

O dicionário guarda o resultado e apaga o percurso. Para seguir a palavra desde a reza, a viagem começa na corte dos reis iorubás, onde àṣẹ também queria dizer ordem.

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I  A Raiz

A palavra que o rei cumpria

A resposta de ontem

Por que Hereford tentou vender o seu mappa mundi em 1988?

Faltava dinheiro para salvar o prédio. Em 1988, a catedral de Hereford precisava de milhões de libras para reparos urgentes e pôs o mapa à venda. O protesto público barrou o leilão: o filantropo John Paul Getty Jr. e o National Heritage Memorial Fund bancaram a conta, e o mapa ganhou uma biblioteca nova na catedral, aberta em 1996.

Os iorubás se organizaram em cidades-reino, como Ifé e Oyó, governadas por um rei chamado oba. A palavra do oba tinha àṣẹ: dita em público, virava ordem e não voltava atrás.

Daí o segundo sentido da palavra, que os dicionários de iorubá registram até hoje: autoridade, comando. Quem tem àṣẹ tem o direito de mandar e a força para ver a ordem cumprida.

Os sinais da grafia guardam a pronúncia. O acento grave sobre o a marca tom baixo, porque o iorubá é língua tonal (a altura da voz muda o sentido da palavra). O ponto sob o s indica o som chiado, o mesmo do x de axé.

Em iorubá, quem tem àṣẹ tem a palavra que se cumpre.

Na religião iorubá, o àṣẹ vem de cima. Olodumarê, o deus supremo, distribui a força entre os orixás, e Exu, o orixá mensageiro, leva os pedidos dos homens até eles e traz a resposta de volta. Sem Exu, a reza não chega, e por esse motivo ele é saudado primeiro.

O sistema de Ifá, a adivinhação iorubá feita por sacerdotes chamados babalaôs, termina seus versos com a mesma palavra. A Unesco reconheceu Ifá como patrimônio imaterial da humanidade em 2005, e os versos recitados ainda fecham em àṣẹ.

A palavra demorou a ganhar papel. O iorubá viveu séculos só na fala, e a escrita com alfabeto latino chegou com missionários cristãos. Samuel Ajayi Crowther, iorubá vendido como escravo na infância, libertado por um navio britânico e ordenado bispo anglicano, publicou A Vocabulary of the Yoruba Language (um vocabulário da língua iorubá) em 1843.

O trabalho de Crowther fixou a grafia que se usa hoje. Antes dele, nenhum documento escrito mostra a palavra, e a raiz mais antiga de àṣẹ continua sem explicação: os linguistas não acharam parente seguro dela em outras línguas da região.

A antropóloga Juana Elbein dos Santos, em Os Nagô e a Morte (1976), descreveu o axé dos terreiros baianos como força que se recebe, se acumula e se transmite de pessoa a pessoa. A descrição dela mostra o sentido de comando da corte iorubá transformado em energia que circula.

No uso diário, o iorubá ainda responde àṣẹ a quem fala bem ou promete algo, como o brasileiro diz falou e disse. A palavra serve à reza, ao rei e à conversa de rua.

O caminho até a Bahia, porém, não foi escolha de ninguém.

 
 

II  A Viagem

Dos nagôs aos terreiros da Bahia

No fim do século 18, o império de Oyó entrou em guerra civil e desmoronou nas primeiras décadas do século 19. Os prisioneiros dessas guerras foram vendidos no litoral, e muitos desembarcaram em Salvador.

Na Bahia, os falantes de iorubá ganharam o nome de nagôs. Eram tantos que o iorubá virou língua franca (língua comum entre povos de falas diferentes) de parte dos africanos da cidade, inclusive de escravizados de outras origens.

Em 1835, Salvador viu a Revolta dos Malês, levante de africanos muçulmanos, muitos deles nagôs. A repressão foi dura: houve prisões, açoites e deportações para a África. A língua, mesmo vigiada, continuou na boca dos que ficaram.

O iorubá cruzou o Atlântico no porão, e a reza guardou a palavra.

Nos terreiros, o iorubá virou língua de culto. As cantigas, os nomes dos orixás e as saudações seguiram na língua africana, e axé entrou no português da Bahia carregando o sentido de força sagrada.

A Casa Branca do Engenho Velho, terreiro fundado em Salvador no século 19, tem no nome formal a palavra: Ilê Axé Iyá Nassô Oká. Em 1984, o Iphan (o órgão federal do patrimônio) tombou o terreiro, o primeiro templo afro-brasileiro protegido no país.

Em 1910, Eugênia Anna dos Santos, a Mãe Aninha, fundou o Ilê Axé Opô Afonjá, também em Salvador. O nome junta a casa (ilê), a força (axé) e o pilar de Afonjá, uma das formas de Xangô, orixá do trovão e da justiça.

No vocabulário do candomblé, o axé da casa é enterrado. Ao fundar um terreiro, a mãe de santo planta o axé no chão: assenta objetos, folhas e elementos consagrados que dão força ao lugar. Quem herda o terreiro herda esse chão.

O axé também passa de pessoa para pessoa. A iniciação no candomblé dura meses de recolhimento, e o iniciado sai dela com axé recebido da mãe de santo, ligado à casa onde foi feito.

O francês Pierre Verger, fotógrafo que chegou a Salvador em 1946, se iniciou no culto e virou babalaô na África, com o nome de Fatumbi. Em livros como Orixás (1981), ele mostrou que os cantos baianos e os da Nigéria usavam as mesmas palavras.

A palavra também atravessou para outra ilha. Em Cuba, a santería (o culto aos orixás trazido pelos iorubás escravizados) escreve aché, com o mesmo sentido de força e de bênção.

 

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III  O Que Fica

O rótulo de 1987

O axé saiu do terreiro para a rua pelos blocos afro. O Ilê Aiyê, fundado em 1974 no bairro da Liberdade, foi o primeiro, e o Olodum, de 1979, levou os tambores do Pelourinho para o Carnaval.

Em 1985, Luiz Caldas gravou Fricote, música que muitos críticos apontam como a primeira do gênero. A canção juntava o frevo do trio elétrico, a batida dos blocos e a guitarra baiana.

Faltava o nome. Em 1987, um jornalista de Salvador escreveu axé music numa coluna, misturando a palavra de terreiro com o inglês das paradas. O apelido tinha deboche: pegava no pé de um som que parte da crítica achava comercial demais.

O rótulo nasceu como piada de colunista e acabou na prateleira das lojas de disco.

As bandas e as gravadoras adotaram o nome. Em 1992, Daniela Mercury estourou no país com O Canto da Cidade, e o axé music passou a vender discos de Salvador ao Sul.

O uso comercial incomodou parte do povo de santo. A palavra que nomeia a força do terreiro passou a nomear abadá, camarote e cordão de bloco. Ninguém conseguiu tirar a palavra do Carnaval, e o sentido religioso seguiu vivo nos terreiros.

Hoje o português guarda as camadas juntas. Axé é a força do orixá, a comunidade do terreiro, o desejo de boa sorte e o gênero do trio elétrico, e o falante escolhe o sentido pela situação.

A palavra até ganhou derivados no português da Bahia. Axezeiro é quem canta ou dança o gênero, e o adjetivo aparece em jornal, em nome de festa e em programação de rádio, sempre ligado ao Carnaval.

Quem quiser ouvir as camadas da palavra pode seguir três passos.

1. Ouça Fricote, de Luiz Caldas, e repare no frevo acelerado por baixo da guitarra.

2. Procure uma gravação de cantigas de candomblé e escute o axé no fim das frases cantadas.

3. Abra um dicionário de iorubá no verbete àṣẹ e confira os dois sentidos, força e comando.

A palavra da corte de Oyó atravessou o Atlântico, assentou-se no chão dos terreiros e subiu no trio elétrico. O nome do gênero, porém, saiu da caneta de um colunista que não gostava do som.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual jornalista de Salvador batizou o gênero de axé music em 1987?

★ RARO

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