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No fim do século 18, o império de Oyó entrou em guerra civil e desmoronou nas primeiras décadas do século 19. Os prisioneiros dessas guerras foram vendidos no litoral, e muitos desembarcaram em Salvador.
Na Bahia, os falantes de iorubá ganharam o nome de nagôs. Eram tantos que o iorubá virou língua franca (língua comum entre povos de falas diferentes) de parte dos africanos da cidade, inclusive de escravizados de outras origens.
Em 1835, Salvador viu a Revolta dos Malês, levante de africanos muçulmanos, muitos deles nagôs. A repressão foi dura: houve prisões, açoites e deportações para a África. A língua, mesmo vigiada, continuou na boca dos que ficaram.
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O iorubá cruzou o Atlântico no porão, e a reza guardou a palavra.
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Nos terreiros, o iorubá virou língua de culto. As cantigas, os nomes dos orixás e as saudações seguiram na língua africana, e axé entrou no português da Bahia carregando o sentido de força sagrada.
A Casa Branca do Engenho Velho, terreiro fundado em Salvador no século 19, tem no nome formal a palavra: Ilê Axé Iyá Nassô Oká. Em 1984, o Iphan (o órgão federal do patrimônio) tombou o terreiro, o primeiro templo afro-brasileiro protegido no país.
Em 1910, Eugênia Anna dos Santos, a Mãe Aninha, fundou o Ilê Axé Opô Afonjá, também em Salvador. O nome junta a casa (ilê), a força (axé) e o pilar de Afonjá, uma das formas de Xangô, orixá do trovão e da justiça.
No vocabulário do candomblé, o axé da casa é enterrado. Ao fundar um terreiro, a mãe de santo planta o axé no chão: assenta objetos, folhas e elementos consagrados que dão força ao lugar. Quem herda o terreiro herda esse chão.
O axé também passa de pessoa para pessoa. A iniciação no candomblé dura meses de recolhimento, e o iniciado sai dela com axé recebido da mãe de santo, ligado à casa onde foi feito.
O francês Pierre Verger, fotógrafo que chegou a Salvador em 1946, se iniciou no culto e virou babalaô na África, com o nome de Fatumbi. Em livros como Orixás (1981), ele mostrou que os cantos baianos e os da Nigéria usavam as mesmas palavras.
A palavra também atravessou para outra ilha. Em Cuba, a santería (o culto aos orixás trazido pelos iorubás escravizados) escreve aché, com o mesmo sentido de força e de bênção.
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