|
|
Arena
/aˈɾe.nɐ/
Do latim. De harēna, a areia que se espalhava no piso do anfiteatro
|
A areia rastelada antes do combate
|
| ▼ |
|
A fachada tem letras de aço escovado com quatro metros de altura, iluminadas por baixo, e uma palavra só em caixa alta no meio delas. Embaixo, em corpo menor, vem o nome do patrocinador que assinou o contrato daquele ano.
Do lado de dentro são sessenta mil assentos de polipropileno, gramado híbrido costurado com fio sintético, drenagem sob o campo, telão de LED, catraca com leitor facial e estacionamento para alguns milhares de carros.
A bilheteria, o mapa do metrô, a camisa do time e o boleto do sócio torcedor repetem a mesma palavra tantas vezes por semana que ninguém para para traduzir.
Não existe um grão de areia em lugar nenhum daquele prédio. E, no entanto, a palavra na fachada quer dizer exatamente areia, em latim, sem metáfora e sem rodeio.
O nome não descreve o formato da construção, nem o tamanho, nem a função. Descreve um material de obra, o mais barato de todos, que operários romanos jogavam no chão com pá e depois acertavam com rastelo.
A palavra fez a viagem mais improvável do vocabulário esportivo. Saiu do monte de areia do pedreiro, passou pelo piso do anfiteatro, subiu para o prédio inteiro e hoje aparece em contrato de patrocínio, em ginásio de show e em análise de disputa política.
Quem paga pelo direito de estampar a marca naquela fachada compra, sem saber, o nome da coisa mais ordinária do canteiro de obras romano, a que se vendia a peso.
Palavra que nomeia o chão não vira nome de prédio por acaso. Alguma coisa muito específica acontecia naquele chão, todos os dias, diante de dezenas de milhares de pessoas sentadas em volta, e a plateia passou a chamar o lugar pelo material que via.
A Raiz começa antes do anfiteatro, num canteiro de obras, com um material que Roma nem sequer batizou sozinha.
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
A palavra que Roma pegou emprestada
|
|
No latim de todo dia, harēna era material de construção. Aparecia na lista de compras do canteiro, ao lado da cal e da pedra, e ocupava capítulo próprio no manual de arquitetura mais completo que Roma deixou.
Vitrúvio dedica boa parte do segundo livro ao assunto e discute qualidade de areia com a seriedade de quem sabe que a parede cai. Separa a de cava, a de rio e a de mar, e ensina um teste que se faz com a mão.
|
Se a areia, esfregada e apertada na mão, ranger, será a melhor; a terrosa não terá aspereza nenhuma. Também será boa se, jogada sobre roupa branca e sacudida, não deixar mancha nem terra.
Vitrúvio, De architectura, livro II, c. 25 a.C.
|
A mesma palavra servia para a praia, para o banco de areia do rio e para o deserto do norte da África. Era vocabulário de pedreiro, de marinheiro e de lavrador, sem nenhum brilho.
O detalhe estranho é que ela não nasceu latina. A forma antiga era hasēna, com s no meio, e os gramáticos romanos registram que os vizinhos sabinos diziam fasena.
Aquele s virou r por uma mudança de som que varreu o latim por volta do século IV a.C. e mexeu até em nome de família. Cícero conta, numa carta, que Lúcio Papírio Crasso foi o primeiro da linhagem a deixar de se chamar Papísio.
A alternância entre h e f no começo aponta para fora do latim. Os etimologistas apontam empréstimo etrusco, língua sem parentesco com o grego, com o sânscrito ou com qualquer coisa da família indo-europeia.
Roma tinha palavra própria para terra, para água e para pedra, todas com primas em meia dúzia de línguas antigas. Para areia, foi buscar com o vizinho e ficou com o empréstimo pelo resto da história.
O português recebeu a palavra duas vezes. Pela boca, no desgaste natural de quem falou latim todo dia por séculos, o n entre vogais caiu: lūna virou lua, corōna virou coroa e harēna virou areia.
Pela escrita, séculos depois, a mesma palavra entrou de novo, copiada direto do livro, com o esqueleto latino quase intacto. Assim nasceu arena, que nunca passou pelo desgaste da conversa.
|
Areia e arena são a mesma palavra latina chegando duas vezes: uma pela boca do povo, outra pela pena do letrado.
|
O espanhol e o italiano guardaram o sentido antigo, e arena ainda é o que se pisa na praia. O francês ficou com sable para o material e reservou arène para o prédio, sinal de que a divisão de tarefas entre as duas ideias já estava feita.
|
|
II A Viagem
O chão que engoliu o prédio
|
|
O anfiteatro flaviano abriu em 80 d.C. com cem dias de espetáculo. A construção tem 189 metros de comprimento por 156 de largura, e o espaço central, onde a coisa acontecia, mede cerca de 83 por 48.
Aquele centro não era terreno batido. Era um assoalho de tábuas apoiado sobre dois andares de corredores, jaulas, roldanas e elevadores de contrapeso, e por cima das tábuas ia uma camada de areia.
A escolha era técnica antes de ser simbólica. A areia dá aderência ao pé, custa quase nada, bebe o sangue que cai e sai com rastelo. Entre um combate e outro entravam homens com cesto e ancinho, reviravam a camada e devolviam o piso limpo para a plateia.
Porque a areia era a superfície que todo mundo olhava, o nome dela começou a valer pelo lugar. Descer à areia virou expressão de quem entrava para lutar, e o latim chamou de harenarius quem trabalhava ali dentro.
Imperador que queria impressionar mexia no material. Plínio, o Velho registra que Nero mandou cobrir a areia do circo com crisocola, um mineral verde caríssimo, no dia em que ia guiar a quadriga com a cor da facção verde.
|
Nero mandou espalhar crisocola sobre a arena do circo, para que combinasse com a cor com que ia conduzir a quadriga.
Plínio, o Velho, História Natural, livro XXXIII, 77 d.C.
|
A metonímia se completou sem que ninguém decidisse nada. Primeiro a palavra era o piso, depois passou a ser o recinto delimitado por aquele piso, e por fim virou o nome do embate que acontecia ali.
|
O nome do chão subiu pela arquibancada e tomou a construção inteira. Quando o piso sumiu, o nome ficou sozinho de pé.
|
Em 404 o imperador Honório encerrou os combates de gladiadores, e os anfiteatros do império perderam a função para a qual tinham sido erguidos. Nenhum deles perdeu o nome.
As construções viraram outra coisa. O anfiteatro de Arles abrigou dentro do próprio anel um bairro com cerca de duzentas casas e duas capelas, desmontado só a partir de 1825, quando a cidade decidiu devolver a pedra romana à vista.
O de Verona ficou com o caso mais literal de todos. A Arena di Verona, erguida por volta de 30 d.C., abriga desde 1913 um festival de ópera, e quinze mil pessoas sentam ali para ouvir Verdi num prédio cujo nome quer dizer areia.
O inglês foi buscar a palavra no latim no século XVII, importada já com o sentido de espaço central do anfiteatro. No século seguinte ela se soltou do prédio e passou a nomear qualquer campo de disputa, do tribunal ao parlamento.
A partir dali a palavra ganhou um uso que não depende de construção nenhuma. Bastava haver dois lados no meio e gente olhando em volta para o lugar virar arena, mesmo sem arquibancada, sem piso e sem uma pá de areia por perto.
|
|