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Aluno
/aˈlu.nu/
Do latim. De alumnus, o que é alimentado, particípio do verbo alere, nutrir
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A mamadeira de barro ao lado do berço
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Na primeira semana de aula, em alguma escola brasileira, um professor vai ao quadro e escreve a palavra partida em duas. Aluno, com um risco de giz separando o a do resto. Ao lado, a tradução: sem luz. A turma anota, alguém ri, e a explicação sai dali viva para mais um ano.
A versão aparece em discurso de formatura, em post de rede social, em apostila de pedagogia e em fala de coordenador, sempre com a mesma moral embutida. Os antigos, diz a lenda, tratavam a criança como cabeça vazia e escura, à espera de alguém que viesse acender.
O problema é que nenhum dicionário etimológico registra a peça. O a de negar é grego, e lumen é latim. Palavra montada com material das duas línguas ao mesmo tempo existe, mas é caso raro e sempre recente, coisa de laboratório e de catálogo, não de vocabulário doméstico romano.
O latim também tinha a própria peça de negar, e não era o a. Era o in-, o mesmo de indouto e de infame. Se um romano quisesse dizer que a criança não tinha luz, teria usado o in-, e a palavra teria chegado ao português com outro desenho.
O que chegou até aqui diz uma coisa bem menos poética e bem mais concreta. Alumnus é o que está sendo alimentado. Não é metáfora de conhecimento nem imagem de tocha acesa: é comida na mesa, leite, papa, a despesa de manter uma criança viva até ela crescer.
E era o nome de uma criança bem específica. Não do filho, não do escravo, não do sobrinho. O alumnus era o menino ou a menina que crescia numa casa que não era a dos pais, num arranjo que o direito romano passou séculos discutindo sem nunca fechar.
A Raiz começa num verbo de cozinha e num sufixo que o latim aposentou cedo.
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I A Raiz
O verbo latino que dava de comer
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A palavra se desmonta em duas peças. A primeira é alere: nutrir, alimentar, criar, fazer crescer. Verbo de despensa e de estábulo, usado tanto para a criança de peito quanto para o gado e para o fogo que se alimenta de lenha.
A segunda peça é o sufixo -mnos, um particípio passivo que o latim herdou e aposentou cedo. Ele marca quem recebe a ação, nunca quem faz. Alumnus, portanto, é o que está sendo alimentado por outro.
O grego guardou a mesma peça viva e produtiva no -menos: graphómenos é o que está sendo escrito. No latim ela fossilizou num punhado de palavras, como Vertumnus, o deus da mudança, montado sobre vertere, virar.
Do mesmo alere sai a prateleira inteira da despensa. Alimentum era o que sustenta, e dele vieram alimento, alimentar, alimentação e alimentício, palavras que ninguém associa a boletim escolar.
Sai também o particípio altus, o crescido. Daí alto, altura, altitude, exaltar e planalto. O latim usava altus para o mar fundo também, porque a medida corre nas duas direções a partir da superfície.
E sai a idade. Adolescere, começar a crescer, deu adolescente, o que está crescendo. O particípio adultus deu adulto, o que terminou de crescer. As duas idades são o mesmo verbo em dois tempos.
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Aluno, alimento, adulto e altura são a mesma palavra em quatro disfarces. No fundo dos quatro está um verbo que quer dizer fazer crescer.
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A raiz é mais antiga que Roma. Os comparatistas reconstroem o indo-europeu h₂el-, crescer e nutrir, que reaparece no gótico alan, criar, e no inglês old, que ao pé da letra é o crescido.
O verbo ainda espalhou filhotes menos óbvios. Proles é o que cresceu adiante, a descendência, e deu prole. Indoles é o que cresce por dentro, o feitio de nascença, e deu índole. Coalescere é crescer junto, e hoje descreve empresa que se funde e osso que solda.
Do mesmo verbo sai o adjetivo almus, aquele que nutre. Dele vem a alma mater das universidades, a mãe que alimenta. E dele não vem a alma do português, que chegou de anima, o sopro, e só parece parente.
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Mãe dos enéadas, prazer dos homens e dos deuses, Vênus que alimenta.
Lucrécio, De Rerum Natura, livro I, c. 55 a.C.
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O verbo, portanto, não fala de escola em momento nenhum. Fala de manter alguém vivo. Quando a palavra virou nome de gente, virou nome de uma pessoa definida pela conta do sustento, e não pela sala onde ela sentava.
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II A Viagem
A criança que Roma criava sem adotar
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Nas lápides de Roma a palavra aparece aos milhares. Alumnus, alumna, muitas vezes com dulcissimus colado atrás, em pedra encomendada por gente que não era pai nem mãe da criança enterrada ali.
O arranjo era comum e não tinha nome jurídico limpo. Um recém-nascido deixado na porta de um templo era recolhido por outra família, criado com o que a casa tinha e chamado pelo que a casa fazia por ele.
O resto ficava em aberto. O alumnus era livre ou escravo? Herdava alguma coisa? Podia ser reclamado anos depois pelo pai que o largou? Um título inteiro do Digesto trata dos legados de alimento, e a resposta mudava de caso para caso.
Por volta do ano 111, um governador provincial escreveu ao imperador justamente porque não sabia decidir. Plínio, o Jovem, administrava a Bitínia e tinha diante de si uma fila de gente criada por estranhos, cobrando a liberdade de volta.
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Grande questão, senhor, e que interessa a toda a província, é a da condição e do sustento daqueles a quem chamam threptoi.
Plínio, o Jovem, Cartas, livro X, 65, c. 111 d.C.
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Trajano respondeu que quem nasceu livre não perde a condição por ter sido criado por outro, e não precisa comprá-la de volta pagando o que comeu. A conta da comida, que dava nome à criança, foi exatamente o que o imperador mandou não cobrar.
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O nome dizia quem pagava a comida. A pergunta que Roma levou séculos para responder era o que a comida comprava.
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O Estado romano entrou no mesmo vocabulário. Nerva e Trajano montaram um fundo público chamado alimenta: dinheiro emprestado a proprietários rurais da Itália, com o juro sustentando as crianças pobres da região.
A conta sobreviveu em bronze. A tábua de Veleia, achada em 1747 perto de Placência, registra 1.044.000 sestércios emprestados a proprietários locais, e o rendimento pagava a manutenção de 281 crianças, com valor mensal diferente para menino e menina.
Roma cai e o latim continua na igreja e na escola da igreja. Alumnus atravessa a Idade Média colado ao mosteiro, onde a criança entregue ao convento também era, ao pé da letra, alimentada pela casa que a recebeu.
Quando as línguas modernas foram batizar quem senta na sala, quase todas foram buscar a mesma ideia. O francês tirou élève de élever, criar. O alemão fez Zögling de ziehen, puxar. O inglês pegou pupil de pupillus, o órfão sob tutela.
O português foi pela via da escrita, direto do latim dos letrados, e trouxe a palavra quase intacta: aluno, aluna. O castelhano ficou com alumno, o italiano com alunno, e o desenho do original sobreviveu nos três.
O sentido escolar demorou a se firmar. Nos dicionários portugueses dos séculos XVIII e XIX a palavra ainda aparece com dois sentidos lado a lado: a criança criada em casa alheia e o discípulo de um mestre.
O inglês ficou com o outro pedaço da história. Lá o alumnus latino não virou o menino da sala. Virou o ex-aluno da faculdade, o alumni que a universidade convida para o jantar anual e depois para a campanha de doação.
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