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A Origem das Palavras   A Origem das Palavras
ED 122

Aluno

/aˈlu.nu/

Do latim. De alumnus, o que é alimentado, particípio do verbo alere, nutrir

Etimologia de Aluno

A mamadeira de barro ao lado do berço

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Na primeira semana de aula, em alguma escola brasileira, um professor vai ao quadro e escreve a palavra partida em duas. Aluno, com um risco de giz separando o a do resto. Ao lado, a tradução: sem luz. A turma anota, alguém ri, e a explicação sai dali viva para mais um ano.

A versão aparece em discurso de formatura, em post de rede social, em apostila de pedagogia e em fala de coordenador, sempre com a mesma moral embutida. Os antigos, diz a lenda, tratavam a criança como cabeça vazia e escura, à espera de alguém que viesse acender.

O problema é que nenhum dicionário etimológico registra a peça. O a de negar é grego, e lumen é latim. Palavra montada com material das duas línguas ao mesmo tempo existe, mas é caso raro e sempre recente, coisa de laboratório e de catálogo, não de vocabulário doméstico romano.

O latim também tinha a própria peça de negar, e não era o a. Era o in-, o mesmo de indouto e de infame. Se um romano quisesse dizer que a criança não tinha luz, teria usado o in-, e a palavra teria chegado ao português com outro desenho.

O que chegou até aqui diz uma coisa bem menos poética e bem mais concreta. Alumnus é o que está sendo alimentado. Não é metáfora de conhecimento nem imagem de tocha acesa: é comida na mesa, leite, papa, a despesa de manter uma criança viva até ela crescer.

E era o nome de uma criança bem específica. Não do filho, não do escravo, não do sobrinho. O alumnus era o menino ou a menina que crescia numa casa que não era a dos pais, num arranjo que o direito romano passou séculos discutindo sem nunca fechar.

A Raiz começa num verbo de cozinha e num sufixo que o latim aposentou cedo.

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I  A Raiz

O verbo latino que dava de comer

A palavra se desmonta em duas peças. A primeira é alere: nutrir, alimentar, criar, fazer crescer. Verbo de despensa e de estábulo, usado tanto para a criança de peito quanto para o gado e para o fogo que se alimenta de lenha.

A segunda peça é o sufixo -mnos, um particípio passivo que o latim herdou e aposentou cedo. Ele marca quem recebe a ação, nunca quem faz. Alumnus, portanto, é o que está sendo alimentado por outro.

O grego guardou a mesma peça viva e produtiva no -menos: graphómenos é o que está sendo escrito. No latim ela fossilizou num punhado de palavras, como Vertumnus, o deus da mudança, montado sobre vertere, virar.

Do mesmo alere sai a prateleira inteira da despensa. Alimentum era o que sustenta, e dele vieram alimento, alimentar, alimentação e alimentício, palavras que ninguém associa a boletim escolar.

Sai também o particípio altus, o crescido. Daí alto, altura, altitude, exaltar e planalto. O latim usava altus para o mar fundo também, porque a medida corre nas duas direções a partir da superfície.

E sai a idade. Adolescere, começar a crescer, deu adolescente, o que está crescendo. O particípio adultus deu adulto, o que terminou de crescer. As duas idades são o mesmo verbo em dois tempos.

Aluno, alimento, adulto e altura são a mesma palavra em quatro disfarces. No fundo dos quatro está um verbo que quer dizer fazer crescer.

A raiz é mais antiga que Roma. Os comparatistas reconstroem o indo-europeu h₂el-, crescer e nutrir, que reaparece no gótico alan, criar, e no inglês old, que ao pé da letra é o crescido.

O verbo ainda espalhou filhotes menos óbvios. Proles é o que cresceu adiante, a descendência, e deu prole. Indoles é o que cresce por dentro, o feitio de nascença, e deu índole. Coalescere é crescer junto, e hoje descreve empresa que se funde e osso que solda.

Do mesmo verbo sai o adjetivo almus, aquele que nutre. Dele vem a alma mater das universidades, a mãe que alimenta. E dele não vem a alma do português, que chegou de anima, o sopro, e só parece parente.

Mãe dos enéadas, prazer dos homens e dos deuses, Vênus que alimenta.

Lucrécio, De Rerum Natura, livro I, c. 55 a.C.

O verbo, portanto, não fala de escola em momento nenhum. Fala de manter alguém vivo. Quando a palavra virou nome de gente, virou nome de uma pessoa definida pela conta do sustento, e não pela sala onde ela sentava.

 
 

II  A Viagem

A criança que Roma criava sem adotar

Nas lápides de Roma a palavra aparece aos milhares. Alumnus, alumna, muitas vezes com dulcissimus colado atrás, em pedra encomendada por gente que não era pai nem mãe da criança enterrada ali.

O arranjo era comum e não tinha nome jurídico limpo. Um recém-nascido deixado na porta de um templo era recolhido por outra família, criado com o que a casa tinha e chamado pelo que a casa fazia por ele.

O resto ficava em aberto. O alumnus era livre ou escravo? Herdava alguma coisa? Podia ser reclamado anos depois pelo pai que o largou? Um título inteiro do Digesto trata dos legados de alimento, e a resposta mudava de caso para caso.

Por volta do ano 111, um governador provincial escreveu ao imperador justamente porque não sabia decidir. Plínio, o Jovem, administrava a Bitínia e tinha diante de si uma fila de gente criada por estranhos, cobrando a liberdade de volta.

Grande questão, senhor, e que interessa a toda a província, é a da condição e do sustento daqueles a quem chamam threptoi.

Plínio, o Jovem, Cartas, livro X, 65, c. 111 d.C.

Trajano respondeu que quem nasceu livre não perde a condição por ter sido criado por outro, e não precisa comprá-la de volta pagando o que comeu. A conta da comida, que dava nome à criança, foi exatamente o que o imperador mandou não cobrar.

O nome dizia quem pagava a comida. A pergunta que Roma levou séculos para responder era o que a comida comprava.

O Estado romano entrou no mesmo vocabulário. Nerva e Trajano montaram um fundo público chamado alimenta: dinheiro emprestado a proprietários rurais da Itália, com o juro sustentando as crianças pobres da região.

A conta sobreviveu em bronze. A tábua de Veleia, achada em 1747 perto de Placência, registra 1.044.000 sestércios emprestados a proprietários locais, e o rendimento pagava a manutenção de 281 crianças, com valor mensal diferente para menino e menina.

Roma cai e o latim continua na igreja e na escola da igreja. Alumnus atravessa a Idade Média colado ao mosteiro, onde a criança entregue ao convento também era, ao pé da letra, alimentada pela casa que a recebeu.

Quando as línguas modernas foram batizar quem senta na sala, quase todas foram buscar a mesma ideia. O francês tirou élève de élever, criar. O alemão fez Zögling de ziehen, puxar. O inglês pegou pupil de pupillus, o órfão sob tutela.

O português foi pela via da escrita, direto do latim dos letrados, e trouxe a palavra quase intacta: aluno, aluna. O castelhano ficou com alumno, o italiano com alunno, e o desenho do original sobreviveu nos três.

O sentido escolar demorou a se firmar. Nos dicionários portugueses dos séculos XVIII e XIX a palavra ainda aparece com dois sentidos lado a lado: a criança criada em casa alheia e o discípulo de um mestre.

O inglês ficou com o outro pedaço da história. Lá o alumnus latino não virou o menino da sala. Virou o ex-aluno da faculdade, o alumni que a universidade convida para o jantar anual e depois para a campanha de doação.

 
 

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III  O Que Fica

O sem luz que nenhum dicionário registra

No Brasil a palavra chegou antes da escola pública. A primeira lei geral de ensino é de 15 de outubro de 1827, e mandou abrir escola de primeiras letras onde houvesse gente reunida em número suficiente.

Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos, haverão as escolas de primeiras letras que forem necessárias.

Lei de 15 de outubro de 1827, Brasil

A data virou o Dia do Professor por decreto em 1963. O texto original tratava de prédio, de ordenado e de método de ensino, e a palavra aluno entrou no pacote burocrático como unidade de contagem, que é o papel dela até hoje.

A escola brasileira transformou a palavra numa casa de números. O Censo Escolar conta matrícula, o financiamento público é calculado por um valor por aluno e por ano, e sala cheia virou contagem de alunos por metro quadrado.

Enquanto o vocabulário oficial engordava, a lenda do sem luz seguia por fora, de boca em boca. Ela pegou carona numa crítica legítima, a de que a escola trata a criança como recipiente vazio, e virou o atalho retórico que abre palestra e fecha discussão.

A checagem cabe em três perguntas simples, e a lenda responde não às três. O prefixo é da mesma língua da palavra? O sufixo aparece em outras palavras dessa língua? A forma antiga está documentada antes da história que a explica?

O que sobrou do sentido original continua funcionando em plena luz do dia, e ninguém percebe. O Estado brasileiro alimenta o aluno desde 1955, quando nasceu a campanha de merenda escolar, hoje um programa que serve comida a mais de 40 milhões de estudantes.

O programa que põe comida na escola e a palavra escrita no diário de classe dizem a mesma coisa. Aluno é quem se alimenta na conta de outra casa.

A família da palavra continua rendendo dentro e fora da sala. Alimento, alimentação, adulto, adolescente, altura, prole e índole saíram todos do mesmo verbo, e circulam sem que ninguém desconfie do parentesco.

Do lado grego a mesma ideia deu outro ramo. O verbo tréphō, nutrir, gerou threptós, o criado por outro, e chegou ao português na atrofia, o que deixou de ser nutrido, e na hipertrofia, o que foi nutrido demais.

A universidade guardou a mãe da história. Bolonha, aberta em 1088, se apresenta até hoje como Alma Mater Studiorum, a mãe que nutre os estudos, e mantém em duas palavras a lógica que a lenda do sem luz apagou.

Quando a chamada é feita e o nome do aluno é dito em voz alta, a sala repete o registro de uma despesa doméstica romana. Alguém está sendo sustentado por uma casa que não é a da família, e por causa da conta ganhou nome.

Quantas palavras da sua rotina você aprendeu com uma explicação bonita que ninguém nunca conferiu?

 
 
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De qual verbo latino saiu a palavra alumnus?

AAlere, nutrir e fazer crescer
BLuminare, iluminar
CLegere, ler e recolher
DDocere, ensinar

Resultado da última edição: 86% acertaram.

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