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Almofada
/aw.moˈfa.dɐ/
Do árabe. Al-mukhadda é aquilo que se põe debaixo do khadd, a bochecha, e o artigo al atravessou grudado até virar o objeto do sofá
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A bochecha que virou objeto de sofá
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Pegue uma almofada do sofá e repare no gesto que você faz sem pensar. A mão põe o objeto de lado, a cabeça tomba, e o rosto encosta sempre no mesmo ponto: aquela área macia entre o osso da mandíbula e a maçã, a parte do rosto que sente a temperatura do tecido antes de qualquer outra.
A palavra nomeia exatamente esse ponto de contato. Não nomeia o enchimento, não nomeia o formato quadrado, não nomeia o tecido, não nomeia o móvel onde o objeto costuma ficar. Nomeia a bochecha.
Existe uma diferença silenciosa entre nomear um objeto pelo que ele é e nomear um objeto pelo que ele toca. Cadeira, mesa e porta descrevem a coisa. Almofada descreve a parte do corpo que se apoia nela, e o objeto entrou na língua como um complemento do rosto humano.
A explicação está numa raiz de três consoantes, no vocabulário doméstico de uma civilização que dominou a Península Ibérica por quase oito séculos. Nesse período, o português absorveu entre oitocentas e mil palavras árabes, e quase todas descrevem coisas concretas: irrigação, arquitetura, tecido, comida e o interior da casa.
Quase todas chegaram carregando um passageiro clandestino. O artigo definido árabe, al, veio colado na frente do substantivo porque o ouvido ibérico não separava o artigo da palavra, e um bloco sonoro inteiro entrou na língua como se fosse uma unidade só.
Por causa dessa colagem, quem hoje diz almofada repete um artigo definido de outro idioma, sem saber que está dizendo o equivalente a a a almofada. O al não é decoração e não é sílaba de enfeite: é um artigo fossilizado que perdeu a função gramatical e virou parte do nome.
O objeto também mudou de posto. Na casa que criou a palavra, ele não era acessório de sofá, porque não havia sofá. Era o assento, o encosto e o travesseiro de um espaço construído no nível do chão.
A Raiz começa nessas três consoantes árabes, muito antes de existir qualquer sala de estar com sofá encostado na parede.
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I A Raiz
Três consoantes e uma bochecha
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O árabe monta o vocabulário a partir de raízes consonantais, quase sempre de três letras, que carregam um campo de sentido. A raiz aqui é kh, d, d, e o campo de sentido dela é a face.
Dessa raiz sai khadd, a bochecha, a lateral do rosto. Sai também o verbo relacionado à ideia de sulcar, de marcar uma linha na superfície, e o mesmo grupo consonantal alimenta palavras ligadas a rego, a vala e a marca deixada em algo mole.
De khadd sai mikhadda, com o prefixo mi que indica instrumento ou lugar da ação. É o mesmo mecanismo que produz miftah, a chave, a partir do verbo abrir, e mizan, a balança, a partir da ideia de pesar. Mikhadda é literalmente a coisa da bochecha, o instrumento onde a bochecha vai.
Com o artigo definido na frente, al-mikhadda, ou al-mukhadda na pronúncia que atravessou, significa a peça sob o rosto. O nome descreve uma função corporal exata, não uma categoria de móvel.
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A palavra não fala do enchimento, nem do tecido, nem do tamanho. Fala do ponto do corpo que encosta primeiro.
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A precisão faz sentido dentro da casa que a produziu. No mundo islâmico medieval, o interior doméstico era organizado no plano baixo: tapetes, esteiras, estrados de madeira e uma parede inteira de peças macias que serviam ao mesmo tempo de assento, de apoio de braço e de cama.
Naquele arranjo, a peça macia era a mobília central, não um adorno posto por cima. Uma família rica exibia riqueza no bordado e no enchimento delas, do mesmo jeito que uma família europeia exibiria numa mesa de jantar entalhada.
O enchimento variava por bolso e por região. Lã cardada, algodão, penas de ave, palha picada e crina de cavalo apareciam conforme o preço, e o forro externo ia do linho cru ao brocado de seda com fio metálico nas casas de corte.
O árabe guardou a palavra viva e sem alteração até hoje. Um falante de árabe moderno pede uma mikhadda quando quer um travesseiro de cama, e a mesma raiz continua nomeando a bochecha no rosto de qualquer pessoa.
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Almofada: do árabe al-mukhadda, propriamente aquilo que se coloca sob a face, travesseiro, coxim.
José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1952
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Repare no que ainda não existe nessa altura da história. Não existe sofá, não existe encosto estofado, não existe a ideia de um objeto decorativo que se joga sobre um assento já macio. Existe apenas uma peça que resolve o encontro entre um corpo e uma superfície dura.
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II A Viagem
O artigo que veio de carona
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A entrada da palavra na Península tem data e endereço. A partir de 711, o território que hoje é Portugal e Espanha passou a ser governado por falantes de árabe, e a convivência com as populações romanizadas durou séculos em quase toda a metade sul.
O contato não foi de gramática, foi de mercado, de obra e de cozinha. As palavras que atravessaram descrevem coisas que se apontam com o dedo: alicerce, açude, azeite, alfaiate, almofariz, alface, alcatra, açúcar, armazém, alfândega e a própria almofada.
A lista tem um traço em comum que salta aos olhos. Um número enorme dessas palavras começa com a ou al, e a razão é gramatical: o falante ibérico ouvia o conjunto artigo mais substantivo como um bloco sonoro único e importava o bloco inteiro.
Quando a consoante seguinte era o que a gramática árabe chama de letra solar, o l do artigo se assimilava na fala e o resultado chegou sem o l: açúcar veio de al-sukkar, azeite veio de al-zayt. Com letra lunar, o l se mantinha inteiro, e foi o que aconteceu com al-mukhadda.
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O português não tomou emprestado um substantivo. Tomou emprestado um substantivo com o artigo já colado, e nunca devolveu o artigo.
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O resultado é um caso de redundância invisível que atravessou mil anos sem incomodar ninguém. Quem diz a almofada empilha dois artigos definidos, um português e um árabe fossilizado, e nenhum falante percebe a duplicata porque o al deixou de funcionar como artigo no instante em que cruzou a fronteira.
A forma escrita foi se ajustando ao ouvido de cada região. O castelhano fixou almohada, com o h aspirado que a fonética espanhola herdou do som gutural árabe, e o português preferiu resolver a mesma consoante com f, produzindo almofada.
Essa troca não é aleatória. O som representado pela letra árabe kha não existia nas línguas românicas da Península, e cada dialeto resolveu o problema com o material que tinha: o castelhano puxou para a garganta, o português puxou para o lábio.
A palavra aparece em documento português desde o período medieval, e os inventários de bens dos séculos catorze e quinze listam almofadas de estrado, almofadas de assento e almofadas de mesa, cada uma com função própria dentro da casa.
O que muda ao longo do tempo não é o nome, é o móvel embaixo dele. Conforme a casa ibérica foi subindo do chão para o assento alto, com cadeiras, bancos e depois canapés estofados, a almofada foi perdendo o posto de mobília central e virando complemento.
Existe uma segunda vida da palavra que nasce justamente dessa perda de posto. Na marcenaria portuguesa, almofada passou a nomear o painel saliente e emoldurado de uma porta de madeira, batizado assim porque a superfície central sobressai do quadro como uma peça macia sobressai de um assento.
O empréstimo, portanto, não parou de trabalhar depois de chegar. Ele mudou de móvel, mudou de material, mudou de ofício, e continuou usando o mesmo nome de bochecha para descrever qualquer coisa que se destaque, macia ou não, sobre uma superfície plana.
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