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Almirante
/aw.miˈɾɐ̃.tʃi/
Do árabe. Amir era quem dava a ordem, o al veio grudado na travessia e o latim medieval enfiou um d por confusão com admirari
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O comandante que virou o mar
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Leia devagar a palavra almirante e procure o mar dentro dela. Não está lá. Não há onda, não há barco, não há sal, não há nenhuma sílaba que aponte para a água em qualquer ponto das nove letras.
O cargo mais alto da marinha de quase todo país do Ocidente é nomeado por uma palavra que fala apenas de mando. Ela diz quem manda, e cala completamente sobre onde manda.
Compare com os vizinhos de patente. Capitão vem de caput, cabeça, e descreve a posição de quem está à frente. Comodoro vem de comandar. Marechal vem de um composto germânico que significa servo do cavalo, e guarda o cheiro do estábulo. Todos falam de hierarquia ou de origem, e nenhum precisa do cenário.
Almirante segue a mesma regra, com um detalhe que muda tudo: o cenário existia no nome completo e caiu no caminho. A expressão original tinha o comandante e tinha aquilo que ele comandava, e a travessia entre línguas apagou a segunda metade, deixando de pé só a palavra que significa chefe.
Sobrou também um passageiro. As duas primeiras letras do nome, o al, não pertencem ao substantivo: são um artigo definido de outro idioma que veio colado e nunca se soltou, o mesmo fenômeno que produziu álgebra, alfândega, azeite e alface no português.
E sobrou um erro. Entre o árabe e o português existe uma escala em latim medieval, e nessa escala apareceu do nada uma letra que a palavra jamais teve, um d que se instalou na segunda sílaba porque escribas cristãos ouviram naquela sequência de sons um verbo latino que conheciam bem, o verbo de olhar com espanto.
O português acabou expulsando esse d e o inglês acabou guardando, e é por essa razão que o mesmo cargo se chama almirante de um lado do Canal da Mancha e admiral do outro, com a diferença exata de uma consoante intrusa que ninguém pediu.
Três acidentes numa palavra só: uma metade perdida, um artigo grudado e uma letra falsa. A Raiz começa antes dos três, num verbo árabe que significa simplesmente dar uma ordem.
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I A Raiz
Um comandante sem mar
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O árabe organiza o vocabulário em raízes de consoantes, e a raiz que interessa aqui é a, m, r. Ela carrega a ideia de ordenar, de determinar, de mandar que algo seja feito.
Do verbo amara, ordenar, sai amr, a ordem dada, e sai amir, o particípio ativo, aquele que ordena. Amir é o comandante, o príncipe, o chefe de qualquer coisa que tenha gente embaixo, e o cargo não vem com terreno especificado.
A mesma forma chegou ao português por outra porta e sem disfarce nenhum: emir, com a variante de vogal que o ouvido europeu preferiu. Emir e almirante são a mesma palavra árabe entrando duas vezes na língua, em séculos diferentes, com resultados que ninguém reconhece como parentes.
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Amir não descreve um lugar de comando. Descreve o ato de mandar, e serve igualmente para quem manda numa cidade, numa caravana ou numa frota.
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Como a palavra sozinha não diz o que se comanda, o árabe resolvia o problema com um complemento. Amir al-bahr era o comandante do mar. Amir al-ma era o comandante da água. Amir al-rahl era o comandante das bagagens, e existia também o comandante dos crentes, amir al-muminin, título dos califas.
O modelo é o de um cargo aberto, que só ganha jurisdição quando alguém pendura um complemento nele. Nesse arranjo, a palavra que carrega o mar não é amir, é bahr, e bahr foi justamente a parte que não sobreviveu à viagem.
O que sobreviveu foi o miolo: o comandante mais o artigo definido. Al-amir era simplesmente o chefe, e o bloco sonoro completo, com o complemento pendurado, atravessou o Mediterrâneo dentro de uma frase que os falantes latinos não conseguiam segmentar.
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Almirante: do árabe amir, chefe, comandante, através do latim medieval admiratus, admirallus, com o d por influência de admirari.
Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 1982
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O detalhe faz sentido dentro da geografia do século dez. As frotas islâmicas dominavam o Mediterrâneo central, com bases na Sicília, na Ifríquia e no litoral do Levante, e quem falasse de guerra naval naquele mar falava de comandantes que se apresentavam com um título árabe.
O poder de mar era administrativo antes de ser romântico. O amir de uma esquadra cuidava de recrutamento, de estaleiro, de salário de remador, de estoque de biscoito e de partilha de presa, e o cargo se parecia mais com o de um intendente armado do que com o de um herói de proa.
A palavra viajou com essa carga burocrática, e é por ela que o título entrou nas chancelarias cristãs: não como poesia de mar, mas como o nome do funcionário que respondia pela frota inteira diante do soberano.
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II A Viagem
O d que a admiração enfiou
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A porta de entrada tem endereço preciso: a Sicília normanda do século doze. Os normandos tomaram a ilha de mãos muçulmanas e, em vez de apagar a administração encontrada, herdaram os cargos, os escribas e a papelada em três línguas.
Na corte de Roger II, em Palermo, o chefe da frota aparece nos documentos como ammiratus, e o mais famoso deles, Jorge de Antioquia, acumulou tanto poder civil que os cronistas passaram a chamá-lo de ammiratus ammiratorum, o comandante dos comandantes.
O latim daquelas chancelarias começou a escrever a palavra de um jeito estranho. Ao lado de ammiratus surgem admiratus e admirallus, com um d que não existe em árabe e que não tem função nenhuma na palavra.
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O d não veio do mar nem do árabe. Veio do ouvido de escribas latinos que reconheceram naquele som o verbo admirari, admirar, e escreveram o que julgaram reconhecer.
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O fenômeno tem nome em linguística histórica: etimologia popular, a reinterpretação de uma palavra estrangeira à luz de outra palavra familiar. O escriba não estava mentindo, estava encaixando um som novo numa prateleira que já tinha, e a prateleira mais próxima era a do espanto.
A terminação também mexeu. O sufixo latino no fim, em allus e depois em ante, aproximou a palavra da família dos particípios presentes do português, a mesma de comandante, navegante e regente, e o resultado passou a soar como um cargo qualquer da corte.
Da Sicília o título subiu pelo Mediterrâneo cristão em duas velocidades. O francês antigo fixou amiral, sem o l duplo e com o d desaparecendo em algumas grafias, e foi essa forma que o inglês recebeu e depois recolou o d, produzindo admiral, que é hoje a forma mais falada do mundo.
A Península Ibérica seguiu outro caminho, e por um motivo simples: ali o árabe não era língua distante, era língua vizinha, ouvida no mercado e nos documentos de fronteira. O castelhano e o português mantiveram o al inicial bem colado e devolveram o d intruso, ficando com almirante.
O cargo se institucionaliza em Castela em 1254, quando o reino cria a figura do almirante mayor de la mar para responder pela frota, e a coroa portuguesa faz o mesmo movimento em 1317, ao contratar o genovês Manuel Pessanha como almirante-mor com a obrigação de fornecer pilotos experientes.
Esse contrato é um documento de língua além de um documento de marinha. Ele mostra o título árabe, passado por escriba latino e corrigido por ouvido ibérico, sendo usado por um rei cristão para comprar competência técnica italiana, tudo na mesma linha de pergaminho.
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