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Alfândega
/aw.ˈfɐ̃.de.ɡɐ/
Do árabe. Al-funduq, a hospedaria dos mercadores, veio do grego pandokheîon, o lugar que acolhe todos
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Pátio de um funduq, a pousada do mercador
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O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define alfândega como a repartição pública que fiscaliza a entrada e a saída de mercadorias e cobra os impostos devidos sobre elas. A definição descreve bem o balcão e esquece a cama. A palavra nasceu num prédio onde se dormia.
Quem espera uma encomenda do exterior conhece a alfândega por uma mensagem curta no rastreio: objeto retido para fiscalização. O pacote para num galpão, um fiscal confere a nota, calcula a taxa e só depois libera a caixa. A palavra soa como porta fechada, fila e carimbo.
Nos portos do Mediterrâneo medieval, o prédio que deu origem à palavra tinha outra função. O mercador que desembarcava com fardos de seda, pimenta ou lã precisava de um teto para si, de um depósito para a carga e de um estábulo para os animais. Um edifício resolvia as três necessidades em volta de um pátio só.
Os árabes chamavam esse edifício de funduq (hospedaria de mercadores). Com o artigo al na frente, a palavra entrou no português da península como alfândega. O sentido foi mudando conforme o poder público percebeu que ali, entre os quartos e os armazéns, estava reunida toda a mercadoria estrangeira da cidade, pronta para ser contada.
O funduq também veio de fora. Os árabes herdaram a palavra dos gregos, que chamavam a estalagem de beira de estrada de pandokheîon, literalmente o lugar que acolhe todos. A repartição que hoje segura sua caixa descende de uma casa cuja definição era não recusar ninguém.
A história tem três paradas: a estalagem grega, a hospedaria árabe dos portos e o prédio português onde a pousada virou posto fiscal. A primeira parada começa numa palavra composta que qualquer estudante de grego desmonta em duas peças.
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I A Raiz
A casa que recebe todos
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O grego pandokheîon junta pan (tudo, todos) e o verbo dékhomai (receber, acolher). A estalagem era, pela própria formação da palavra, o lugar onde qualquer viajante encontrava porta aberta, pagando. O dono do estabelecimento se chamava pandokheús, o estalajadeiro, e a dona, pandókeia.
A primeira peça continua viva no português culto. Está em panorama, a vista de tudo, em pandemia, a doença de todo o povo, e em panteão, o templo de todos os deuses. A segunda peça é mais discreta, mas aparece em palavras técnicas como sinédoque, a figura de linguagem que recebe a parte pelo todo.
A estalagem grega não tinha boa fama. Platão, no livro XI das Leis, escrito por volta de 350 a.C., trata os estalajadeiros como exemplo de comércio que tende ao abuso: o viajante chega cansado, sem alternativa, e o dono cobra o que quer. O filósofo propõe que a cidade regule o ofício e fixe preços justos para quem hospeda estrangeiros.
O texto antigo mais lido em que a palavra aparece é outro. No Evangelho de Lucas, na parábola do bom samaritano, um viajante assaltado na estrada entre Jerusalém e Jericó é socorrido por um estrangeiro da Samaria, que o leva a um pandokheîon e paga ao pandokheús para cuidar dele.
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Levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse: cuida dele, e o que gastares a mais eu te pagarei quando voltar.
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Evangelho de Lucas, 10,34-35, século I
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A cena guarda o sentido original inteiro: a hospedaria recebe quem aparece, o dono presta o serviço e o pagamento vem em moeda contada. Nenhum fiscal, nenhum imposto. O dinheiro que troca de mão ali é diária de quarto e comida.
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A primeira alfândega na história da palavra cobrava diária, e não imposto.
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Do grego, a palavra passou ao aramaico, a língua falada na Palestina e na Síria nos primeiros séculos da era cristã, na forma pundqā. Chegou também ao hebraico como pundak, que em Israel ainda hoje designa a pousada de beira de estrada. Foi pelo aramaico que o termo entrou no árabe, ajustado aos sons da língua: funduq, com o mesmo sentido de casa que hospeda viajantes.
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II A Viagem
Pátio embaixo, quartos em cima
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No mundo islâmico medieval, o funduq ganhou uma planta própria. Era um edifício de dois andares em volta de um pátio fechado, com um único portão para a rua. No térreo ficavam os armazéns e os estábulos. No andar de cima, os quartos dos mercadores, abertos para uma galeria que dava vista para a carga.
O desenho servia ao comércio e à vigilância. O portão fechava à noite, e quem guardava a chave sabia quem dormia ali, o que havia chegado e o que ia sair. Nos portos de Alexandria, Túnis e Acre, os governantes reservavam um funduq para cada grupo de mercadores estrangeiros: um para os venezianos, outro para os genoveses, outro para os pisanos.
Um exemplar dessa arquitetura ainda está de pé em Granada, na Espanha. O Corral del Carbón foi construído no século XIV, durante o reino nasrida (a última dinastia muçulmana da península), como funduq para mercadores de passagem. Depois da conquista cristã virou depósito de carvão, daí o apelido, e é o único edifício do tipo que chegou inteiro aos dias de hoje na Espanha.
No Marrocos, o modelo sobreviveu em uso. Em Fez, o Funduq al-Najjarin (a hospedaria dos marceneiros) foi construído em 1711 para receber mercadores e artesãos em trânsito, com a mesma planta de pátio, armazém e quartos. Restaurado nos anos 1990, hoje abriga um museu dedicado às artes da madeira, e o termo funduq segue em uso no árabe atual como a palavra comum para hotel.
Os italianos levaram a palavra para casa. Em Veneza, fondaco passou a designar o prédio onde uma comunidade estrangeira era obrigada a morar e negociar. O Fondaco dei Tedeschi, junto à ponte de Rialto, abrigava os mercadores alemães desde o século XIII; depois de um incêndio em 1505, foi reconstruído e teve a fachada pintada por Giorgione e Ticiano.
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Quem decide onde o estrangeiro dorme decide também como ele vende.
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No Fondaco dei Tedeschi, o alemão não podia vender direto ao cliente de fora. Toda mercadoria entrava pelo prédio, passava pela pesagem de funcionários venezianos e pagava a taxa da república antes de seguir para o mercado. A hospedaria virou instrumento de controle fiscal sem mudar de nome.
O espanhol recebeu a mesma palavra por outra via e a desviou para outro produto. Alhóndiga passou a ser o armazém público de grãos, onde o trigo era guardado, vendido e tabelado pela cidade. A Alhóndiga de Granaditas, em Guanajuato, no México, foi erguida entre 1798 e 1809 para estocar cereais e virou palco de uma das primeiras batalhas da independência mexicana, em 1810.
Três línguas, três destinos para o mesmo funduq: o italiano ficou com o prédio dos estrangeiros, o espanhol ficou com o celeiro municipal e o português ficou com a repartição que cobra imposto.
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