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Alfaiate
/aw.faj.ˈa.tʃi/
Do árabe. al-khayyāṭ era quem costura, do verbo khāṭa, e o português guardou o artigo al colado enquanto o espanhol ficou com sastre, do latim
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Mesa de corte numa alfaiataria ao fim da tarde
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"Alfaiate: profissional que corta e cose peças de vestuário, especialmente masculinas, sob medida" (Houaiss). A entrada descreve o ofício com precisão de manual e passa longe da estranheza da palavra, que não tem nenhum parentesco com corte, com pano ou com medida em português. O falante brasileiro repete todo dia uma frase árabe inteira, com artigo definido preso na frente, sem desconfiar que ali dentro moram duas peças gramaticais separadas.
A frase original é al-khayyāṭ. O bloco final, khayyāṭ, sai do verbo khāṭa, costurar, e o substantivo khayṭ, que nomeia o fio. O árabe tem um molde fixo para fabricar nome de ofício a partir de um verbo, e foi por esse molde que o costurador virou nome de profissão, do mesmo jeito que o ferro virou ferreiro e o pão virou padeiro na boca de qualquer falante.
O al da frente é apenas o artigo definido árabe, equivalente ao nosso o. Quem ouvia a palavra na Península Ibérica medieval não falava árabe bem o bastante para separar artigo de substantivo, e engoliu o conjunto como bloco único. O mesmo aconteceu com alface, algodão, alfândega, almofada e dezenas de outras: em todas elas o primeiro pedaço é um artigo que o português adotou sem saber que estava adotando.
O espanhol tomou caminho oposto. Teve a palavra, usou a palavra por séculos na forma alfayate, e depois a abandonou por completo em favor de sastre, termo que vem do latim e nomeia quem remenda. Duas línguas irmãs, nascidas do mesmo latim e submetidas à mesma presença árabe, decidiram de maneiras contrárias sobre a mesma profissão.
A pergunta que sobra é por que o português guardou o costureiro árabe e o vizinho preferiu o remendão romano, e a resposta começa no próprio verbo, no idioma em que a palavra foi montada peça por peça, séculos antes de existir fronteira ou dicionário no caminho dela.
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I A Raiz
O verbo que virou nome de ofício
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O árabe organiza o vocabulário por raízes de três consoantes, e a raiz que interessa aqui é kh-y-ṭ. Dela saem o verbo khāṭa, costurar, o substantivo khayṭ, fio ou linha, e o nome do instrumento, mikhyaṭ, a agulha. Uma família inteira de palavras do mesmo campo prático, todas montadas sobre o mesmo esqueleto de três sons.
Sobre essa raiz o idioma aplica moldes fixos para gerar sentidos previsíveis. Um deles, o padrão fa''āl, com a consoante do meio dobrada, fabrica nome de quem exerce um ofício de forma habitual. Assim nasceram najjār, o carpinteiro, ḥaddād, o ferreiro, khabbāz, o padeiro, e khayyāṭ, o costureiro.
A regularidade explica por que o vocabulário de oficinas entrou tão inteiro no português ibérico. Quem comprava serviço de artesão em al-Andalus ouvia dezenas de nomes construídos pelo mesmo molde e podia reconhecer a função sem conhecer a gramática, porque o som repetido do meio marcava o ofício.
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Alfaiate, do arabe Al khaiât, o que cose.
Frei João de Sousa, Vestígios da Língua Arábica em Portugal, 1789
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O frade que escreveu essa linha era intérprete de árabe da corte portuguesa e passou anos reunindo os termos que a língua tinha herdado dos oito séculos de presença muçulmana. O trabalho dele é a primeira compilação sistemática de arabismos publicada em português, e a definição dada ali, o que cose, guarda a tradução exata do molde original.
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O molde árabe não descreve o pano nem a tesoura. Descreve o gesto: quem costura, todo dia, como profissão.
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Vale reparar no que a palavra escolhe nomear. Alfaiate não fala de corte, de medida, de tecido nem de encomenda. Fala apenas da linha atravessando o pano, o gesto mais repetitivo e menos glamouroso do ofício, elevado a nome da profissão inteira.
Outras línguas olharam para o mesmo trabalhador e escolheram outro gesto. O francês tirou tailleur do verbo tailler, cortar, e o inglês recebeu tailor pelo mesmo caminho, de modo que o profissional anglo-francês é nomeado pela tesoura enquanto o luso-árabe é nomeado pela agulha.
A escolha não é detalhe decorativo. Ela mostra o que cada cultura considerou a etapa decisiva do serviço: no norte da Europa, o corte do molde sobre o tecido caro, na Península ibérica arabizada, a costura que monta a peça.
Duas palavras da mesma raiz kh-y-ṭ ainda circulam por aqui sem disfarce nenhum, guardadas em vocabulário técnico de alfaiataria e de bordado antigo, e o falante que as usa nunca reparou que está pronunciando, em português, um pedaço de gramática árabe.
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II A Viagem
A rota que passou por al-Andalus
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A presença árabe na Península Ibérica durou de 711 a 1492, quase oito séculos de convivência linguística, e o português nasceu no meio desse período, nas terras cristãs do noroeste que avançavam para o sul. A língua se formou já em contato com o vocabulário do sul, não depois dele.
O contato foi comercial e urbano acima de tudo. Os arabismos do português se concentram em campos práticos: agricultura e irrigação, com acéquia e nora, construção, com alicerce e azulejo, administração, com alfândega e alcaide, e ofícios de cidade, com alfaiate à frente da lista.
O artigo grudado é a marca de fábrica desse empréstimo. Nas palavras que entraram por via oral, o al veio junto, às vezes assimilado à consoante seguinte, como em açúcar e em arroz, às vezes preservado inteiro, como em algodão e em alfaiate.
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Alfaiate, do ár. al-hayyat, 'id.'; documentado no séc. XIII.
Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 1982
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A datação importa. A palavra já aparece em documento medieval português muito antes de o idioma ter dicionário, gramática impressa ou norma escrita, o que significa que ela entrou pela boca de gente comprando roupa, não pela pena de erudito traduzindo tratado.
O castelhano teve a mesma palavra e a perdeu. Alfayate é forma corrente na documentação medieval de Castela, aparece em foros e em contratos de artesãos, e some da língua viva entre os séculos dezesseis e dezessete, substituída por sastre em praticamente todo o território.
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Alfayate, ant., 'sastre', del ár. hayyat.
Joan Corominas, Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana, 1954
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Sastre tem origem latina e chegou ao castelhano pelo catalão e pelo occitano, formas ligadas ao latim sartor, o remendador, do verbo sarcire, remendar ou consertar. O nome castelhano do profissional vem, portanto, da ideia de conserto, e não da de costura nova.
A troca acompanha um movimento maior da língua espanhola. A partir do século dezesseis, com a Reconquista concluída e a expulsão dos mouriscos em curso, muitos arabismos foram sendo trocados por sinônimos de origem latina ou romance, num apagamento que o português praticou bem menos.
O resultado é uma assimetria fácil de conferir em qualquer fronteira. Um brasileiro que entra numa loja em Buenos Aires e pede um alfaiate não é entendido, e um argentino que fala em sastre no Porto encontra a mesma parede, embora as duas línguas venham do mesmo latim e tenham convivido com os mesmos vizinhos por oitocentos anos.
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