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ED 144

Alfaiate

/aw.faj.ˈa.tʃi/

Do árabe. al-khayyāṭ era quem costura, do verbo khāṭa, e o português guardou o artigo al colado enquanto o espanhol ficou com sastre, do latim

Etimologia de Alfaiate

Mesa de corte numa alfaiataria ao fim da tarde

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"Alfaiate: profissional que corta e cose peças de vestuário, especialmente masculinas, sob medida" (Houaiss). A entrada descreve o ofício com precisão de manual e passa longe da estranheza da palavra, que não tem nenhum parentesco com corte, com pano ou com medida em português. O falante brasileiro repete todo dia uma frase árabe inteira, com artigo definido preso na frente, sem desconfiar que ali dentro moram duas peças gramaticais separadas.

A frase original é al-khayyāṭ. O bloco final, khayyāṭ, sai do verbo khāṭa, costurar, e o substantivo khayṭ, que nomeia o fio. O árabe tem um molde fixo para fabricar nome de ofício a partir de um verbo, e foi por esse molde que o costurador virou nome de profissão, do mesmo jeito que o ferro virou ferreiro e o pão virou padeiro na boca de qualquer falante.

O al da frente é apenas o artigo definido árabe, equivalente ao nosso o. Quem ouvia a palavra na Península Ibérica medieval não falava árabe bem o bastante para separar artigo de substantivo, e engoliu o conjunto como bloco único. O mesmo aconteceu com alface, algodão, alfândega, almofada e dezenas de outras: em todas elas o primeiro pedaço é um artigo que o português adotou sem saber que estava adotando.

O espanhol tomou caminho oposto. Teve a palavra, usou a palavra por séculos na forma alfayate, e depois a abandonou por completo em favor de sastre, termo que vem do latim e nomeia quem remenda. Duas línguas irmãs, nascidas do mesmo latim e submetidas à mesma presença árabe, decidiram de maneiras contrárias sobre a mesma profissão.

A pergunta que sobra é por que o português guardou o costureiro árabe e o vizinho preferiu o remendão romano, e a resposta começa no próprio verbo, no idioma em que a palavra foi montada peça por peça, séculos antes de existir fronteira ou dicionário no caminho dela.

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I  A Raiz

O verbo que virou nome de ofício

O árabe organiza o vocabulário por raízes de três consoantes, e a raiz que interessa aqui é kh-y-ṭ. Dela saem o verbo khāṭa, costurar, o substantivo khayṭ, fio ou linha, e o nome do instrumento, mikhyaṭ, a agulha. Uma família inteira de palavras do mesmo campo prático, todas montadas sobre o mesmo esqueleto de três sons.

Sobre essa raiz o idioma aplica moldes fixos para gerar sentidos previsíveis. Um deles, o padrão fa''āl, com a consoante do meio dobrada, fabrica nome de quem exerce um ofício de forma habitual. Assim nasceram najjār, o carpinteiro, ḥaddād, o ferreiro, khabbāz, o padeiro, e khayyāṭ, o costureiro.

A regularidade explica por que o vocabulário de oficinas entrou tão inteiro no português ibérico. Quem comprava serviço de artesão em al-Andalus ouvia dezenas de nomes construídos pelo mesmo molde e podia reconhecer a função sem conhecer a gramática, porque o som repetido do meio marcava o ofício.

Alfaiate, do arabe Al khaiât, o que cose.

Frei João de Sousa, Vestígios da Língua Arábica em Portugal, 1789

O frade que escreveu essa linha era intérprete de árabe da corte portuguesa e passou anos reunindo os termos que a língua tinha herdado dos oito séculos de presença muçulmana. O trabalho dele é a primeira compilação sistemática de arabismos publicada em português, e a definição dada ali, o que cose, guarda a tradução exata do molde original.

O molde árabe não descreve o pano nem a tesoura. Descreve o gesto: quem costura, todo dia, como profissão.

Vale reparar no que a palavra escolhe nomear. Alfaiate não fala de corte, de medida, de tecido nem de encomenda. Fala apenas da linha atravessando o pano, o gesto mais repetitivo e menos glamouroso do ofício, elevado a nome da profissão inteira.

Outras línguas olharam para o mesmo trabalhador e escolheram outro gesto. O francês tirou tailleur do verbo tailler, cortar, e o inglês recebeu tailor pelo mesmo caminho, de modo que o profissional anglo-francês é nomeado pela tesoura enquanto o luso-árabe é nomeado pela agulha.

A escolha não é detalhe decorativo. Ela mostra o que cada cultura considerou a etapa decisiva do serviço: no norte da Europa, o corte do molde sobre o tecido caro, na Península ibérica arabizada, a costura que monta a peça.

Duas palavras da mesma raiz kh-y-ṭ ainda circulam por aqui sem disfarce nenhum, guardadas em vocabulário técnico de alfaiataria e de bordado antigo, e o falante que as usa nunca reparou que está pronunciando, em português, um pedaço de gramática árabe.

 
 

II  A Viagem

A rota que passou por al-Andalus

A presença árabe na Península Ibérica durou de 711 a 1492, quase oito séculos de convivência linguística, e o português nasceu no meio desse período, nas terras cristãs do noroeste que avançavam para o sul. A língua se formou já em contato com o vocabulário do sul, não depois dele.

O contato foi comercial e urbano acima de tudo. Os arabismos do português se concentram em campos práticos: agricultura e irrigação, com acéquia e nora, construção, com alicerce e azulejo, administração, com alfândega e alcaide, e ofícios de cidade, com alfaiate à frente da lista.

O artigo grudado é a marca de fábrica desse empréstimo. Nas palavras que entraram por via oral, o al veio junto, às vezes assimilado à consoante seguinte, como em açúcar e em arroz, às vezes preservado inteiro, como em algodão e em alfaiate.

Alfaiate, do ár. al-hayyat, 'id.'; documentado no séc. XIII.

Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 1982

A datação importa. A palavra já aparece em documento medieval português muito antes de o idioma ter dicionário, gramática impressa ou norma escrita, o que significa que ela entrou pela boca de gente comprando roupa, não pela pena de erudito traduzindo tratado.

O castelhano teve a mesma palavra e a perdeu. Alfayate é forma corrente na documentação medieval de Castela, aparece em foros e em contratos de artesãos, e some da língua viva entre os séculos dezesseis e dezessete, substituída por sastre em praticamente todo o território.

Alfayate, ant., 'sastre', del ár. hayyat.

Joan Corominas, Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana, 1954

Sastre tem origem latina e chegou ao castelhano pelo catalão e pelo occitano, formas ligadas ao latim sartor, o remendador, do verbo sarcire, remendar ou consertar. O nome castelhano do profissional vem, portanto, da ideia de conserto, e não da de costura nova.

A troca acompanha um movimento maior da língua espanhola. A partir do século dezesseis, com a Reconquista concluída e a expulsão dos mouriscos em curso, muitos arabismos foram sendo trocados por sinônimos de origem latina ou romance, num apagamento que o português praticou bem menos.

O resultado é uma assimetria fácil de conferir em qualquer fronteira. Um brasileiro que entra numa loja em Buenos Aires e pede um alfaiate não é entendido, e um argentino que fala em sastre no Porto encontra a mesma parede, embora as duas línguas venham do mesmo latim e tenham convivido com os mesmos vizinhos por oitocentos anos.

 

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III  O Que Fica

O que ficou preso no artigo

O al que veio de carona deixou marca permanente na estrutura do português. Ele não funciona mais como artigo, virou sílaba morta dentro do substantivo, e o falante pluraliza, deriva e conjuga a palavra inteira sem nenhuma consciência de estar carregando gramática alheia.

A prova está na derivação. De alfaiate saíram alfaiataria, o estabelecimento, e alfaiatar, o verbo, além do adjetivo alfaiatado, aplicado hoje a calça, blazer e vestido de corte estruturado. Todos esses termos incorporam o artigo árabe como se fosse raiz, porque para a língua portuguesa ele já é.

O empréstimo mais bem sucedido é o que perde a etiqueta de estrangeiro. Alfaiate parou de ser árabe no dia em que virou base de novas palavras portuguesas.

Há ainda um uso lateral que quase ninguém associa ao ofício. Em Portugal, alfaiate é o nome popular da ave Recurvirostra avosetta, que tem bico fino, longo e curvado para cima, comparado por observadores à agulha que sobe e desce sobre o pano, e o batismo popular recuperou, sem querer, a imagem original da palavra árabe.

O ofício, enquanto isso, mudou de posição social duas vezes. Foi trabalho comum de rua na cidade medieval, presente em qualquer bairro, virou artesanato de luxo com a chegada da roupa industrial no século dezenove, e hoje sobrevive como serviço caro num punhado de ateliês por cidade grande.

A palavra sobreviveu às três fases sem alterar uma letra. Ela nomeava o homem que remendava o gibão de um lavrador de Coimbra em 1300 e nomeia o profissional que ajusta um terno de casamento em São Paulo neste mês, com a mesma sequência de sons e o mesmo artigo colado.

O caso serve de lembrete sobre como uma língua guarda memória sem querer. O português não decidiu preservar o árabe, e a maior parte dos falantes nem sabe que ele está ali, mas a palavra continua carregando artigo, verbo e molde de ofício como fóssil intacto dentro de uma conversa banal sobre bainha de calça.

O espanhol, ao trocar alfayate por sastre, fez a escolha oposta e apagou o rastro. Quem fala castelhano hoje nomeia o profissional por uma palavra latina, e o vestígio dos oito séculos ficou registrado apenas em dicionário histórico e em documento de cartório medieval.

Nenhuma das duas línguas planejou o próprio resultado. Um artesão foi chamado pelo gesto de costurar, um cristão do norte ouviu o bloco inteiro sem separar as peças, um escrivão castelhano preferiu o termo romano, e a soma de gestos miúdos entregou a cada idioma uma palavra diferente para a mesma tesoura.

Quantas palavras do seu vocabulário de todo dia começam com um artigo de outra língua que você nunca reparou que estava ali?

 
 
 
 
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Segundo o texto, o verbo latino sarcire, que deu origem a sastre no espanhol, significa o quê?

ACosturar peça nova
BCortar o tecido sob medida
CRemendar ou consertar
DMedir o corpo do cliente

Resultado da última edição: 71% acertaram.

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