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Alarme
/a.ˈlaɾ.mi/
Do italiano all'arme, às armas: o grito da sentinela que fura a regra do al árabe
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O sino da torre de vigia
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Nasceu do comentário
“Lembrei-me do meu professor de latim, que me ensinou que toda palavra em português que começa com "al" tem origem árabe.”
Esta edição nasceu do comentário de um leitor em 05/09, na edição Alfaiate.
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O dicionário Houaiss define alarme como "sinal que avisa de perigo". A definição descreve a sirene e esquece o homem que gritava. Antes de virar campainha, alarme era uma ordem berrada do alto de uma muralha, e quem a berrava falava italiano.
A pergunta desta edição chegou pela caixa de comentários. Um leitor contou que o professor de latim da escola dele ensinava uma regra curta: palavra portuguesa começada em al vem do árabe. O professor tinha motivo para ensinar assim. A regra acerta muitas vezes, e acerta em palavras que usamos toda semana.
Alface, algodão, álgebra, alfaiate, almofada, aldeia. Em todas, as duas primeiras letras são o artigo árabe al (equivalente ao nosso o ou a), que entrou grudado no substantivo e nunca mais saiu. Quem aprendeu a regra na escola ganhou uma chave boa para abrir uma parte grande do vocabulário, da cozinha à oficina de costura.
Alarme não abre com essa chave. O al dele é italiano, e nem é artigo sozinho: é a contração de a (para) com le (as), a mesma que o português faz em "às". All'arme quer dizer às armas. Era o grito da sentinela nas cidades italianas do século XIV, quando alguém avistava tropa inimiga na estrada que levava aos portões.
O francês juntou as duas palavras em alarme, e o português recebeu a forma pronta. Alerta nasceu na mesma fábrica: all'erta, para o alto, a ordem de subir à torre de vigia. Álibi e alegria também começam com al e também chegaram por outra estrada.
Para entender onde a regra falha, primeiro é preciso ver onde ela acerta, e ela acerta porque a Península Ibérica passou quase oito séculos convivendo com o árabe.
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I A Raiz
O artigo que grudou no substantivo
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Em 711, tropas vindas do norte da África atravessaram o estreito de Gibraltar e ocuparam quase toda a Península Ibérica. O território sob domínio muçulmano ganhou o nome árabe de al-Andalus. O último reino islâmico da península, Granada, só caiu em 1492.
No território que viria a ser Portugal, o sul ficou mais tempo sob governo árabe. O Algarve, cujo nome vem de al-gharb (o oeste), só foi tomado por Afonso III em 1249. Durante séculos, na lavoura, na oficina e na feira, camponeses, artesãos e comerciantes cristãos compraram, venderam e trabalharam falando com vizinhos que usavam o árabe.
O empréstimo seguiu o caminho do mercado. O cristão ouvia al-khass (a alface) na banca de verduras e não separava o artigo da palavra, porque não falava árabe. Levava para casa o pacote inteiro: alface. O mesmo aconteceu com al-qutn, que virou algodão, e com al-khayyat (o costureiro), que virou alfaiate.
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O português engoliu o artigo árabe sem perceber que era artigo.
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O castelhano fez igual, e as duas línguas ibéricas ficaram cheias de palavras com al fossilizado. O francês e o italiano, que receberam muitos desses termos por outra via, costumam trazer a palavra sem o artigo. O algodão português é coton em francês e cotone em italiano.
A álgebra tem certidão de nascimento conhecida. Por volta de 820, o matemático persa Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, que trabalhava na Casa da Sabedoria de Bagdá, escreveu um tratado de cálculo cujo título incluía a expressão al-jabr (a recomposição, a restauração). Era o nome da operação de passar um termo para o outro lado da equação para completá-la.
O tradutor medieval Roberto de Chester verteu o livro para o latim em 1145, e al-jabr entrou nas universidades europeias como algebra. O sobrenome do autor também virou palavra: al-Khwarizmi, deformado em latim, deu algarismo e algoritmo.
Al-jabr tinha outro uso na Espanha. Restaurar valia também para osso quebrado, e o algebrista era quem colocava fratura no lugar. Miguel de Cervantes, em Dom Quixote, segunda parte, de 1615, fala de um algebrista chamado para cuidar das costelas de Sansão Carrasco depois de uma queda.
A regra do professor ainda tem uma parte escondida. Diante de certas consoantes, o l do artigo árabe se assimila à letra seguinte na pronúncia. Ar-ruzz virou arroz, az-zayt virou azeite e as-sukkar virou açúcar. São palavras árabes com artigo, só que o al não aparece. A regra acerta em alface e deixa passar o arroz.
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II A Viagem
O grito da sentinela
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As cidades do norte da Itália no século XIV viviam em guerra umas com as outras. Florença, Siena, Pisa, Milão e Veneza pagavam companhias de mercenários, os condottieri (capitães contratados), e cercavam os muros com torres de vigia.
Na torre ficava a sentinela, outra palavra que o português tomou do italiano sentinella. Quando ela via tropa se aproximando, gritava para dentro da muralha: all'arme! Os moradores largavam o trabalho e corriam para buscar lança e escudo. O sino da torre repetia o aviso.
A gramática do grito é simples. All' é a contração da preposição a com o artigo feminino plural le, antes de vogal. Arme é o plural de arma. Em português, a mesma construção dá às armas, que também existe como brado militar.
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Alarme é uma ordem de duas palavras que o uso transformou em substantivo.
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O francês recebeu o grito e fez dele um nome. Alarme aparece nos textos franceses já no fim da Idade Média, com o sentido de aviso de ataque e também de medo repentino. Do francês a palavra passou ao português, que durante um tempo hesitou entre alarma e alarme. O espanhol ficou com alarma.
O inglês pegou a mesma palavra por dois caminhos e ficou com duas formas: alarm e alarum. William Shakespeare usou a segunda nas rubricas das peças de guerra, como Henrique VI, escritas por volta de 1591, para indicar trombetas e barulho de batalha nos bastidores.
Alerta segue a mesma trilha. Erta, em italiano, é a subida íngreme, o lugar alto. All'erta era a ordem para subir ao posto de vigia e ficar atento. Stare all'erta, estar no alto, virou sinônimo de estar de prontidão, e o português fez de alerta adjetivo, advérbio e substantivo.
A guerra explica por que tantas palavras italianas entraram no português num intervalo tão curto, durante o Renascimento. As guerras da Itália, entre 1494 e 1559, puseram exércitos franceses, espanhóis e suíços em território italiano por décadas. Soldados de toda a Europa voltaram para casa com o vocabulário militar das cidades onde lutaram. Os portugueses receberam boa parte desses termos por tabela, pelos livros franceses e espanhóis de arte da guerra que circulavam em Lisboa.
Soldado vem do italiano soldato, o homem pago com soldo. Esquadrão vem de squadrone. Bússola, que não é termo militar mas viajou no mesmo barco, vem de bussola, a caixinha de madeira onde ficava a agulha magnética. Alarme e alerta chegaram nessa bagagem, com o al italiano intacto.
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