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A Origem das Palavras   A Origem das Palavras
ED 145

Açougue

/a.ˈso.gi/

Do árabe. as-sūq nomeava o mercado inteiro, o mesmo souk de Marrakech, e na travessia pro português a palavra encolheu até sobrar só a banca onde se corta carne

Etimologia de Açougue

Corredor coberto de um souk ao meio-dia

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"Açougue: estabelecimento onde se vende carne, geralmente bovina, no varejo" (Houaiss). A entrada descreve com exatidão o balcão refrigerado do supermercado brasileiro e apaga o tamanho original da palavra, que por séculos não teve nada a ver com carne, com corte nem com boi. Ela nomeava o comércio urbano inteiro, todas as bancas, todas as ruas de venda, o espaço público onde a cidade negociava tudo o que produzia.

A forma árabe é as-sūq. O bloco final, sūq, quer dizer mercado, feira, praça de negócio, e continua vivo hoje em todo o mundo árabe com sentido idêntico. O visitante que anda pelo souk de Marrakech, pelo souq de Alepo ou pelo suq de Túnis está pisando dentro da mesma palavra que o brasileiro usa para pedir dois quilos de patinho na esquina de casa.

O as da frente é o artigo definido árabe, o mesmo al que aparece em alfândega e em algodão, assimilado à consoante seguinte pela regra fonética do idioma. O português engoliu artigo e substantivo como bloco único, sem separar as peças, e por isso a palavra chegou aqui já com uma sílaba de gramática alheia soldada na frente.

O que aconteceu depois da travessia é o caso raro. A palavra atravessou a Península Ibérica carregando o comércio urbano inteiro nas costas e foi perdendo território a cada século, até restar um único gênero de mercadoria. O mercado virou seção do mercado, a seção virou loja de rua, e o falante brasileiro herdou a versão encolhida sem nunca ter visto a versão grande. Nenhum decreto marcou a data da perda, e ainda assim ela está registrada linha por linha em papel de câmara municipal portuguesa.

A documentação medieval portuguesa registra a fase intermediária com clareza suficiente para se acompanhar a perda, foral por foral, e o percurso começa no idioma em que a palavra foi montada, três consoantes antes de existir carne pendurada em gancho.

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I  A Raiz

O mercado que cabia em três consoantes

O árabe organiza o vocabulário por raízes de três consoantes, e a que interessa aqui é s-w-q. Dela sai o verbo sāqa, conduzir, tocar o rebanho para a frente, empurrar o gado na direção de algum lugar. Do mesmo esqueleto vem o substantivo sūq, o ponto para onde o rebanho é conduzido, e daí o mercado.

A imagem por baixo da palavra é concreta e pastoril. O mercado não foi batizado pela troca, pelo dinheiro nem pela banca, foi batizado pelo movimento dos animais sendo tocados até o lugar de venda. O nome guarda o gesto do vaqueiro empurrando a boiada, não o gesto do comerciante contando moeda.

A raiz continua produtiva no idioma. Dela saem também sāʾiq, o condutor, o motorista de hoje, e taswīq, que nomeia o marketing no árabe moderno, a arte de conduzir a mercadoria até quem compra. Uma família inteira montada sobre a ideia de empurrar alguma coisa até o ponto de encontro.

Açougue, do arabe Assûk, o mercado, ou praça onde se vendem os mantimentos.

Frei João de Sousa, Vestígios da Língua Arábica em Portugal, 1789

O frade que registrou essa linha era intérprete de árabe da corte portuguesa e passou anos catalogando os termos herdados dos oito séculos de presença muçulmana na Península. A definição dele, escrita no fim do século dezoito, ainda traz o sentido largo, mercado de mantimentos em geral, sem restringir a palavra à carne.

O nome do mercado árabe não fala de moeda nem de balança. Fala do rebanho sendo empurrado até o lugar onde a cidade se encontra.

O sūq da cidade islâmica medieval era muito mais que um punhado de barracas. Era um sistema urbano organizado por corporações, com ruas inteiras dedicadas a um ofício só, a rua dos tintureiros, a rua dos ourives, a rua dos curtidores, cada uma com seu chefe, sua regra de preço e seu lugar fixo no traçado da cidade.

Essa arquitetura sobrevive intacta em Marrakech, em Fez, em Alepo antes da guerra, em Istambul sob o nome turco de çarşı. O turista que se perde nos corredores cobertos de Marrakech está dentro de um desenho urbano que a Península Ibérica também teve, em Córdoba, em Sevilha, em Lisboa, e que a Reconquista desmontou pedra por pedra.

Um cargo administrativo completava o sistema e explica por que a palavra viajou com força. O muḥtasib era o fiscal do mercado, encarregado de conferir pesos, medidas, qualidade da mercadoria e honestidade da venda, e o cargo passou intacto para o português medieval na forma almotacé, outro arabismo que o Brasil abandonou e que sobreviveu em nome de rua no Nordeste.

 
 

II  A Viagem

A rota que encolheu a palavra

O açougue entra na documentação portuguesa ainda com o sentido árabe inteiro. Nos forais e nas posturas municipais dos séculos treze e catorze, açougue nomeia a praça de mercado da vila, o lugar público onde se vendia pão, peixe, hortaliça, azeite e carne, sem privilégio nenhum para o talho.

Açougue, do ár. as-sūq 'mercado, feira'; documentado no séc. XIII com o sentido de praça de mercado.

Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 1982

A datação mostra que a palavra entrou pela boca de quem comprava e vendia, não pela pena de erudito traduzindo tratado. Ela chega ao português escrito já consolidada no uso oral das vilas do centro e do sul, região que passou séculos sob administração muçulmana antes de mudar de mãos.

O castelhano recebeu a mesma palavra e a guardou por caminho paralelo. Azogue, na documentação medieval de Castela, nomeia a praça do povoado, o largo onde acontece a feira, e o termo ficou fossilizado em topônimo, como na Plaza del Azoguejo de Segóvia, aos pés do aqueduto romano.

Azogue, 'plaza de un pueblo, donde se tiene el mercado', del ár. sūq 'mercado'.

Joan Corominas, Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana, 1954

A palavra sumiu da língua viva espanhola e virou nome de lugar, congelada na placa da praça. Quem mora em Segóvia pronuncia azoguejo todo dia sem associar o som a mercado, e o espanhol contemporâneo nomeia o comércio de carne por carnicería, construção latina transparente montada sobre carne.

A especialização portuguesa aconteceu por dentro do próprio mercado. Dentro da praça, a venda de carne era a atividade mais regulada de todas, por causa da fiscalização sanitária, do imposto sobre o abate e do controle do preço em época de escassez. As posturas municipais falavam do açougue quando falavam de carne, porque era a parte que o poder público mais precisava vigiar.

Século após século, a menção administrativa foi puxando o sentido. A praça inteira continuou existindo com outros nomes, feira, terreiro, mercado, e o termo árabe ficou colado na banca que gerava mais papel de fiscal. A palavra encolheu por excesso de regulamento, não por desuso.

Portugal completou o movimento de outro jeito. O português europeu passou a chamar de talho o estabelecimento de carne, do verbo talhar, cortar, ligado ao latim taliare, e reservou açougue para uso regional ou histórico. O Brasil ficou com o arabismo, e hoje um lisboeta que pede o açougue mais próximo numa rua do Porto soa antiquado.

 

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III  O Que Fica

O que sobrou da praça

A palavra guarda no plural a memória do tamanho antigo. A forma açougues, no português medieval, designava o conjunto de bancas de uma vila, e ainda aparece em documento de câmara municipal do século dezenove nomeando o edifício público inteiro onde a carne era vendida sob fiscalização, não uma loja de dono particular.

A derivação seguiu a palavra na versão pequena. Açougueiro nomeia hoje quem corta e vende carne, e o termo carrega uma carga figurada pesada, aplicada a cirurgião desastrado e a político brutal, sentido que a palavra árabe original, ligada a comércio urbano, jamais teve.

A palavra não perdeu nada no caminho. Ela foi ficando presa na parte do mercado que o fiscal visitava todo dia.

O fenômeno tem nome na linguística histórica e se chama especialização de sentido, quando um termo largo vai restringindo o alcance até nomear apenas um subconjunto do que nomeava antes. O português tem outros casos evidentes, como fazenda, que já significou mercadoria e bem material de qualquer tipo antes de virar propriedade rural.

O caminho contrário também existe e ajuda a medir a distância percorrida. Companheiro nasceu como quem divide o pão, do latim cum panis, e hoje nomeia qualquer parceria, do casamento à empresa, num alargamento que espelha invertido o encolhimento do açougue.

O mais curioso do caso é que a versão grande da palavra continua disponível ao falante brasileiro, importada de novo, por outro caminho e com outra grafia. Souk e souq chegaram ao português pelo francês e pelo inglês, entraram por reportagem de viagem e cardápio de restaurante, e nomeiam exatamente o que açougue nomeava em 1300.

Duas formas da mesma palavra árabe convivem hoje em português sem que ninguém repare no parentesco. Uma veio pela Península Ibérica, pela boca de gente comprando comida, e encolheu até o balcão de carne. A outra veio por avião, pela imprensa do século vinte, e manteve o tamanho original de labirinto comercial.

O falante que diz açougue e o falante que diz souk estão pronunciando o mesmo substantivo árabe com mil anos de diferença entre uma entrada e outra. A primeira travessia trouxe a palavra a pé, pela fronteira terrestre e pelo uso diário. A segunda trouxe pronta, embrulhada em exotismo, para nomear um lugar longe.

Nenhum falante decidiu nada dessa história. Um vaqueiro conduziu rebanho até um lugar de venda, um fiscal medieval escreveu regra de preço da carne mais vezes que regra de preço do azeite, um português preferiu talhar, um jornalista do século vinte trouxe a palavra de volta com grafia francesa, e a soma de gestos miúdos deixou o Brasil com um mercado inteiro guardado dentro de uma loja de esquina.

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