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Aconchego
/a.kõ.ˈʃe.gu/
Do latim. Chegar vem de plicare, dobrar, o verbo dos marinheiros que recolhiam a vela ao aportar, e aconchegar é esse dobrar aplicado a gente
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Porto romano: a vela recolhida na chegada
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Um navio mercante entrava na barra e a última manobra da viagem era sempre a mesma: recolher o pano. A tripulação puxava a vela para baixo e a ia dobrando contra a verga, camada sobre camada, até o tecido virar um volume amarrado que não pegava mais vento. O verbo latino dessa operação era plicare, que quer dizer dobrar.
Plicare deixou filhos por toda parte no português, e quase nenhum deles parece parente do outro. Aplicar é dobrar um pano sobre o outro. Complicar é dobrar junto, embolar as dobras. Explicar é desdobrar, abrir o que estava fechado. Duplicar é dobrar em dois. Réplica é a dobra que responde, súplica é a dobra do joelho de quem pede. Até prega e dobra de tecido saem desse mesmo tronco.
Na boca de quem navegava, dobrar o pano ganhou um segundo sentido. Quem recolhia a vela tinha acabado de encostar em terra, e o gesto final da travessia virou o nome da travessia inteira. O verbo que descrevia o tecido sendo vergado passou a nomear o ato de aportar, e depois o ato de aparecer em qualquer lugar, com ou sem barco, com ou sem mar.
O espanhol fez a mesma viagem e ficou com llegar. O italiano recusou a metáfora do pano e preferiu arrivare, que sai de ripa, a margem do rio, ou seja, o barco que encosta na beirada. Duas línguas irmãs olharam para a mesma cena do porto e escolheram detalhes diferentes para batizar a ideia de chegar.
O português ainda deu um terceiro destino a esse verbo. Juntou o prefixo a, que indica aproximação, o prefixo con, que quer dizer junto, e chegar, e construiu aconchegar: chegar junto e se recolher ao corpo do outro. O gesto do pano dobrado continua vivo na palavra que você usa para cobertor, colo e sofá numa noite fria, sem nunca ter reparado nele.
Um filólogo catalão passou décadas defendendo essa rota contra colegas que a achavam improvável, e a defesa dele começa com uma frase de manual de navegação romana.
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I A Raiz
O verbo que dobrava o pano
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Joan Corominas, filólogo catalão que publicou em 1954 o Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, sustentou que o llegar espanhol e o chegar português saíram da linguagem dos navegadores romanos. A expressão que ele traz é plicare navem, dobrar a nave, no sentido de recolher o pano e arrimá-la à terra, registrada em textos latinos de navegação.
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Da língua do mar veio o verbo que hoje serve para toda espécie de chegada, por terra, por ar ou por carta.
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Joan Corominas, Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, 1954
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O caminho do som confirma o que a imagem sugere. O português fez uma troca regular com os grupos pl, cl e fl do latim no começo da palavra: todos viraram ch. Plenum virou cheio, pluviam virou chuva, plorare virou chorar, plumbum virou chumbo, clavem virou chave, flammam virou chama. Plicare entrando nessa fila devolve exatamente chegar.
O espanhol aplicou a mesma pressão com resultado diferente, e as duas línguas parecem discordar quando dizem a mesma frase. Lá, pl virou ll: lleno, llover, llorar, llave, llamar. E llegar. Cada uma das palavras da fila portuguesa tem a gêmea espanhola no mesmo lugar, o que transforma a lista inteira num teste de consistência, e não numa coincidência isolada.
O miolo da palavra também obedece a uma regra conhecida. O c entre vogais do latim amoleceu e virou g no português: amicum deu amigo, spicam deu espiga, carricare deu carregar. Plicare virou chegar pelo mesmo trilho, sem exceção nenhuma no meio do percurso.
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Chegar não nomeia a distância vencida. Nomeia o pano que se recolhe quando ela termina.
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A discussão que sobrou entre os estudiosos é outra, e ela continua aberta. Parte dos dicionaristas prefere derivar chegar de applicare, o verbo com prefixo ad, encostar um corpo no outro, em vez do plicare simples, porque applicare navem também aparece nos textos antigos com sentido de atracar. Como as duas formas dariam resultado sonoro parecido depois de séculos de desgaste, nenhum documento conhecido decide a disputa: faltam registros do período em que a mudança aconteceu, e o latim escrito daquele tempo raramente anotava a fala dos portos.
O que os dois lados aceitam sem briga é o núcleo da história. A ideia de dobra está lá, a cena do navio está lá, e a palavra saiu do convés para a terra firme carregando o gesto.
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II A Viagem
Por que o italiano preferiu a margem
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Arrivare, o verbo italiano de chegar, nasceu de outra manobra portuária. Ele vem do latim vulgar arripare, formado com ad, que indica direção, e ripa, que quer dizer margem, a beira do rio ou do mar. Chegar, para quem falava naquela região, era encostar o casco na borda de terra, sem nenhuma menção ao pano.
O francês seguiu a Itália e ficou com arriver. O português guardou a raiz ripa em palavras que ainda usa sem desconfiar: riba, ribeira, ribeirão e arribar, o verbo que no vocabulário marítimo significa entrar em porto, muitas vezes forçado pelo mau tempo. Ave de arribação é o pássaro que aporta na estação certa e vai embora depois.
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Aconchegar, de a mais con mais chegar, guarda o sentido de trazer para perto e acomodar.
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Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1982
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Vale olhar para uma terceira solução romântica. O romeno diz a ajunge, que descende de adiungere, juntar, atar uma ponta na outra, o mesmo verbo que deu junção e adjunto no português. Três idiomas nascidos do latim precisaram de um verbo para a ideia de chegada e nenhum deles reaproveitou o verbo clássico que os romanos cultos usavam nessa função, advenire. Cada um foi buscar a cena que tinha diante dos olhos: o pano recolhido, a margem encostada, a ponta que se ata.
No português, a família de chegar cresceu por dentro. Achegar é trazer para junto, achego é o que se junta a alguém como apoio, chegado é o parente próximo de sangue ou de convívio. O espanhol tem allegado no mesmo posto, com o mesmo sentido de gente que está perto por vínculo, e não por metro.
Aconchegar carrega a dose dupla. O prefixo a puxa a aproximação, o con puxa a companhia, e o verbo no meio traz a dobra herdada. Somando os três pedaços, a palavra descreve uma operação física bem definida: aproximar, reunir e recolher, na ordem. É o que a mão faz quando puxa o cobertor por cima de alguém e ajeita a borda para que não entre ar.
O substantivo aconchego apareceu depois do verbo, como acontece quase sempre nesse tipo de derivação. A forma mais antiga registrada no português inclui também conchego, sem o a inicial, usada por escritores portugueses com o sentido de abrigo e de agasalho. A língua acabou preferindo a variante mais longa, e o conchego sumiu dos dicionários de uso corrente sem nunca ter sido proibido por ninguém.
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