|
|
Abacate
/a.ba.ˈka.tʃi/
Do náuatle. āhuacatl era testículo e virou apelido do fruto que pende aos pares no galho, e o espanhol suavizou pra aguacate antes do nosso abacate
|
Abacateiros no altiplano mexicano ao fim da tarde
|
| ▼ |
|
"Abacate: fruto do abacateiro, de casca verde-escura e polpa oleosa amarelo-esverdeada" (Houaiss). A entrada descreve com exatidão o que se compra na feira e se cala sobre a pergunta que interessa aqui: por que a fruta se chama assim. O verbete trata o nome como se ele fosse arbitrário, um som qualquer colado num objeto qualquer, quando o nome é um apelido anatômico dado por agricultores de língua náuatle no altiplano do México.
A árvore ajuda a entender a brincadeira. A Persea americana cresce alto, tem tronco grosso e folha coriácea, e o fruto amadurece pendurado nas pontas dos galhos, preso por um cabo curto e resistente. Nos ramos carregados, dois frutos costumam ficar lado a lado, presos no mesmo nó do ramo, com o formato ovalado e a pele escura balançando com o vento.
Quem colhia aquele fruto todo ano via a cena repetida centenas de vezes por safra e batizou o objeto pelo que ele lembrava. A palavra que os nahuas usavam para o fruto era exatamente a mesma que usavam para o testículo, e a coincidência não é acidente de tradutor apressado: está registrada em preto no branco no primeiro grande dicionário da língua, publicado no México do século dezesseis por um frade que passou a vida escutando falantes nativos.
Os espanhóis pegaram a palavra, acharam difícil a sequência de sons inicial e a reformaram para algo que soasse familiar aos próprios ouvidos, encaixando ali dentro uma palavra que já conheciam. O português recebeu a forma espanhola já lapidada, tirou o g e fixou abacate, e o falante brasileiro repete todo dia um termo cuja piada de origem se apagou por completo no caminho.
O curioso é que o parente mais famoso dessa palavra continua na mesa do brasileiro com a raiz quase intacta, e quase ninguém desconfia. Uma segunda palavra náuatle, feita do mesmo elemento, atravessou o Atlântico junto e virou nome de um prato que se serve em restaurante mexicano de shopping.
A primeira parada é o próprio altiplano, no idioma em que o fruto ganhou nome séculos antes de o primeiro navio europeu chegar à costa do Golfo.
Continue lendo ↓
|
|
I A Raiz
O apelido que os nahuas deram ao galho
|
|
O náuatle era a língua franca do centro do México quando os espanhóis desembarcaram, falada dos mercados de Tlatelolco às províncias tributárias da costa, e nela o fruto se chamava āhuacatl, com a primeira vogal longa. O termo aparece em composições de nome de lugar espalhadas pelo mapa mexicano até hoje, como Ahuacatlán, que significa algo próximo de lugar onde há abacateiros.
A prova documental do segundo sentido está num livro fácil de consultar. Alonso de Molina, frade franciscano criado no México e fluente na língua desde menino, publicou em 1571 um vocabulário bilíngue que continua sendo a principal fonte do náuatle clássico, e a entrada do fruto traz as duas acepções coladas uma na outra, sem cerimônia nem nota de rodapé.
|
Auacatl: fruta conocida, o el compañón.
Alonso de Molina, Vocabulario en lengua castellana y mexicana, 1571
|
Compañón era a palavra corrente em espanhol do século dezesseis para testículo, termo de anatomia e de criação de animais, nada obsceno para o leitor da época. O frade estava apenas registrando o uso que ouvia, e o registro dele fixou para sempre a ambiguidade que a língua carregava.
A leitura mais aceita entre estudiosos do náuatle é que o sentido anatômico veio do fruto, e não o contrário. A árvore existia ali muito antes do contato com o europeu, a colheita era rotina agrícola, e o formato pendurado aos pares serviu de metáfora pronta para nomear a parte do corpo. A língua fez o que sempre faz: pegou o que estava à mão no mundo material e usou para falar do corpo.
|
O batismo saiu do galho para o corpo, e não do corpo para o galho. Primeiro veio a fruta pendurada, depois a comparação.
|
Vale notar que a metáfora não era exclusividade mexicana. O grego usou órkhis para nomear tanto o testículo quanto a planta de tubérculo duplo que hoje chamamos de orquídea, e o latim fez o mesmo tipo de transferência em nome de planta. O olhar que compara vegetal e anatomia aparece em línguas sem nenhum parentesco entre si, porque a semelhança física é observável por qualquer um que colha.
O mesmo elemento náuatle gerou um segundo empréstimo que continua na boca do mundo inteiro. De āhuacamōlli, formado por āhuaca mais mōlli, que era o nome genérico de molho ou caldo espesso, saiu guacamole, o preparo de fruta amassada com pimenta e sal que os espanhóis encontraram servido no altiplano e adotaram sem trocar quase nada na palavra.
O par abacate e guacamole guarda, portanto, a mesma raiz indígena em graus diferentes de disfarce. Uma foi reformada pelo espanhol até ficar irreconhecível, a outra atravessou quase intacta porque não havia palavra europeia parecida para puxá-la de volta ao território conhecido.
|
|
II A Viagem
Do altiplano ao dicionário espanhol
|
|
A primeira descrição europeia da fruta saiu da pena de um funcionário da coroa. Martín Fernández de Enciso, escrivão e geógrafo, publicou em 1519 a Suma de Geografía e descreveu na costa da atual Colômbia uma árvore cujo fruto parecia uma laranja no tamanho, ficava amarelo quando maduro e tinha sabor de manteiga, comparação que qualquer pessoa reconhece hoje ao abrir um abacate.
O espanhol demorou a estabilizar a grafia. Os cronistas escreveram ahuacate, auacate, aguacate e até avocado conforme o ouvido e a região, e a forma que venceu foi aguacate, com o g que não existia na palavra original. A explicação corrente é a atração fonética de agua, palavra frequentíssima que puxou o termo estranho para um formato pronunciável e familiar.
Pedro Cieza de León, soldado e cronista que percorreu o Peru na década de 1540, já usa aguacate na Crónica del Perú de 1553, e a partir dali a forma se firma no espanhol americano e depois no peninsular. A palavra tinha atravessado a etapa mais perigosa da vida de um empréstimo, a de ser esquecido antes de entrar em dicionário.
|
Todo empréstimo passa por uma alfândega sonora. O que não cabe na fonética da língua receptora é aparado até caber, e o corte apaga a origem.
|
O inglês fez um desvio ainda mais engraçado. Falantes britânicos e coloniais transformaram aguacate em avocado, forma que coincidia com uma palavra espanhola já existente para advogado, e por isso a fruta apareceu em texto inglês do século dezoito chamada de alligator pear, pera de jacaré, apelido inspirado na casca rugosa e escura de algumas variedades.
O português seguiu por um caminho mais econômico. Recebeu aguacate do espanhol, derrubou o g, encurtou a sequência inicial e fixou abacate, com a árvore virando abacateiro por sufixo nosso, e entregou ao falante uma palavra que não desperta nenhuma suspeita de origem.
|
Abacate, do esp. aguacate, este do náuatle ahuacatl.
Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 1982
|
Há um detalhe cronológico que costuma passar batido. A fruta chegou ao Brasil bem depois da palavra circular pela América espanhola, trazida por rota colonial e cultivada primeiro nas capitanias do litoral, e o nome já vinha pronto na bagagem, sem chance de o tupi ou o português local darem um batismo próprio.
Quando o abacateiro se espalhou pelo interior brasileiro, portanto, ele carregava um nome mexicano com pronúncia espanhola aparada pelo português. Três línguas participaram do trajeto, nenhuma delas falada por quem comprou um abacate na feira nesta semana.
|
|